O presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, reafirmou ontem que a meta de inflação estabelecida para 2017, de 4,5%, é ambiciosa, mas crível. "Estamos seguros de que a inflação vai convergir para a meta em 2017", disse, durante apresentação em evento promovido pelo Banco Central da Argentina em Buenos Aires. Durante 20 minutos, Ilan traçou um panorama sobre o Brasil e sobre o cenário externo, voltando a dizer que a política monetária de juros muito baixos das economias desenvolvidas representa um "interregno benigno" que os emergentes devem aproveitar.

Ilan lembrou que o Brasil teve quase 11% de inflação no ano passado, mas neste ano o indicador deve recuar para 7,3%. "Estamos com desinflação importante e temos expectativas de que isso vai continuar nos próximos anos", disse. O presidente do BC observou que as expectativas do mercado estão convergindo, apontando para inflação de 4,5% de 2018 em diante, e de 5,1% no próximo ano.

Ilan afirmou considerar "imperativas as ações destinadas a reconstruir o  balanço do setor público", por meio de medidas para racionalizar e reduzir gastos e recolocar a dinâmica da dívida "em ordem". Segundo ele, o choque externo das commodities foi maximizado, no Brasil, por políticas internas como o aumento do gasto público, o congelamento de alguns preços e o excesso de intervenção na economia. O resultado disso, afirmou, foi uma recessão de 7% em dois anos.

Por isso, agora é necessário fazer os ajustes na economia, a começar pela imposição de um limite para os gastos públicos, afirmou o presidente do BC. Porém, para que essa medida funcione, é necessária a reforma da previdência, ressaltou Ilan. Enquanto a limitação dos gastos é importante para a inflação, outras reformas, como a trabalhista, são importantes para melhorar a
produtividade, acrescentou Ilan. A uma plateia de representantes de bancos centrais, ele mencionou ainda um esforço do governo  para fazer privatizações e aumentar os investimentos em infraestrutura. "Tem um longo caminho pela frente, mas por ora estamos na direção", disse Ilan, em painel junto com os presidentes das autoridades monetária do Chile e da Argentina, Rodrigo Vergara e Federico Sturzenegger, respectivamente. A sessão foi moderada por Armínio Fraga, ex­presidente do BC.

Na sessão de perguntas e respostas, ao ser consultado sobre a expectativa de crescimento do Brasil para 2017, Ilan afirmou que há uma recuperação  moderada. "Temos um cenário de crescimento, e é natural que depois de uma recessão tão forte como foi no Brasil, tenha um rebote. O problema é o desemprego que continua subindo e o ajuste nos salários reais levará tempo. Não creio que o consumo sera o primeiro item a voltar a crescer." O presidente do BC afirmou acreditar que a recuperação da economia será gradual, mas segura. "É possivel que as coisas aconteçam mais rápido do que pensamos, especialmente as reformas forem aprovadas, disse. Ele ponderou, n o entanto, que esse não é o cenário­base ­ "mas sim um bônus que, se vier, melhor".

Segundo Ilan, a economia mundial passa por um período de transição que levará a um novo equilíbrio. Por enquanto, o cenário é de  abundância de liquidez e lenta recuperação das economias avançadas. Essa combinação cria um "interregno benigno" para os países emergentes. Porém, afirmou o presidente do BC brasileiro, não é provável que esse período dure muito. Conforme as economias se recuperarem, haverá uma normalização das condições monetárias ­ particularmente nos Estados Unidos.

"Me parece que os emergentes devem tirar vantagem dessa janela de oportunidade para reformar e ajustar suas economias", disse, acrescentando que a normalização das condições monetárias nas economias avançadas deve acabar com o período de juro zero, que leva os investidores a buscar ativos com melhor rendimento. O fim desse "interregno benigno", não deve ser visto como má notícia, segundo Ilan, embora não se possa  descartar alguma volatilidade adiante.

Questionado se o Brasil deveria pensar em ficar abaixo da meta de inflação, Ilan disse entender que não. "Pelo menos em casos como o nosso, em que a inflação vem convergindo acima da meta, ainda com metas mais audazes, objetivo de um ′undershoot′, o ganho é muito pouco", afirmou. 


Fonte: Valor - Finanças, por Marina Guimarães, 21/09/2016