Leia os principais trechos da entrevista com Venilton Tadini.

Valor: A reconfiguração das cadeias de suprimentos é uma oportunidade ou desafio para infraestrutura no Brasil?

Venilton Tadini: São as duas coisas. Existe hoje um movimento em direção à transição energética na infraestrutura e, ao mesmo tempo, uma oportunidade para se inserir nas cadeias de valor. Se for feito um programa de infraestrutura bem feito, focando nas que permanecerão valorizadas no futuro, é uma oportunidade. O Brasil é um agente importantíssimo na transição energética. Isso precisa ser revertido em redução importante do custo Brasil e, ao mesmo tempo ser fator de demanda para sua indústria. A gente não quer proteção, mas política efetiva de desenvolvimento, olhando os três grandes vetores mundiais: transição energética, segurança alimentar e segurança estratégica propriamente dita. Não podemos correr o risco de desenvolver uma indústria do agro sem ter fertilizantes, ter grande capacidade de elaboração de vacinas e depender do insumo farmacêutico de fora. Política industrial é sim decidir os nichos estratégicos para país ter autonomia na so seu desenvolvimento.

Valor: Estão sobrando projetos ou faltando ativos atraentes no Brasil atualmente?

Tadini: A primeira coisa a levar em consideração é que os projetos que temos hoje são mais bem articulados, com estudos de viabilidade bem mais competentes, toda parte de estruturação mitigação, depois de criado programa de parcerias de investimentos, com a entrada do BNDES e do apoio da Caixa. Existe um lote bom ainda para sair, apenas do governo federal são 31 ainda. É diferente do que tinha no passado. O PAC [Programa de Aceleração de Crescimento, bandeira das gestões do PT] era uma relação de ativos, não existia estudo nem nada, não havia boas soluções de financiamento, com regras difíceis de serem atendidas. Se existem bons projetos, qual o problema? Agora temos um mercado hoje mais hostil e receoso do ponto de vista da aplicação do capital. Neste cenário, eles migram de volta para suas economias e têm mais preferência por liquidez. Também temos menos players participando de concorrências por causa do cenário político eleitoral. Com a inflação em perspectiva de queda, também é menos vantajoso entrar agora, contratar um juro alto, então alguns preferem ficar líquidos, aumentando poder de fogo e esperando um momento melhor.

Valor: Mas essa situação deve perdurar algum tempo, não?

Tadini: Sim, a minha visão é que o país precisa começar baixando os juros aqui e fazer uma sinalização de um programa onde possa ter investimento publico. Mas certamente não terá apetite que se viu quatro anos atrás. A questão é: não há dúvida de que, enquanto não resolver essas questões, o Estado terá que colocar dinheiro, seja financiando, seja fazendo estudo para viabilizar investimento.

Valor: Como atrair estrangeiros?

Tadini: Dependendo do perfil do fundo, acredito que ainda existem boas oportunidades, principalmente por parte da demanda fraca e do número pequeno de players atualmente, o que abre brecha para que alguns ativos alcancem preço menor do que em uma situação diferente da atual. Tanto em rodovias como aeroportos, os maiores players internacionais estão aqui, tirando empresas americanas.

Valor: O investimento público precisa voltar a crescer? De que forma e como fazer caber no Orçamento?

Tadini: Hoje, o investimento do governo é irrisório, estamos com nível de investimento total, não apenas em infraestrutura, de R$ 20 bilhões, muito aquém dos R$ 80 bilhões que investíamos num passado não muito distante. Sem dúvida alguma, isto é fruto de uma situação perversa em que, por causa do teto de gastos e do Orçamento pouco flexível, a variável de ajuste é o investimento. Para abrir espaço, é preciso uma reforma administrativa, mas também tirar essa situação de o investimento ser a variável de ajuste. E precisamos de uma estratégia de desenvolvimento. E não é repetir o PAC. Se feito de forma racionalizada, poderia ser um New Deal do país.

Valor: Não se corre o risco de ter se criar uma nova fonte de ineficiência com dinheiro público?

Tadini: Acredito que a gestão pública avançou muito desde 2016, a governança avançou muito. A EPL [Empresa de Planejamento e Logística] voltou a estruturar projetos, o BNDES entrou também nessa área, a criação do PPI foi muito importante, se articulando com órgãos de fiscalização e agencias reguladoras. É preciso lembrar que o próprio PAC estava retomando algo que havia sido interrompido no Brasil na década de 1980, que é o investimento público em infraestrutura. As experiências passadas foram importantes e ajudam a melhorar os novos projetos.

Valor: E isso inclui, em que medida, rever a atuação do BNDES?

Tadini: É preciso reforçar orçamento do banco. Era US$ 200 bilhões, agora são R$ 60 bilhões. Mas não é fazer que nem no ciclo anterior, que foi usar banco para fazer a reindustrialização e infraestrutura. É preciso definir um padrão de financiamento, em articulação com o mercado de capitais e com órgãos multilaterais de crédito.

Valor: Alguma área merece atenção especial próximo governo?

Tadini: Com a privatização da Eletrobras, o setor de energia está praticamente privatizado. Falta apenas uma regulação melhor. Na minha visão, restam dois gargalos. O primeiro é em transporte e logística. Hoje, a gente investe 0,4% do PIB no segmento, que também inclui mobilidade urbana. Fizemos um estudo em que mostramos que é preciso elevar esse porcentual a 2,4% nos próximos dez anos. A mesma coisa para o setor ferroviário. Os projetos para grãos e minérios avançaram, mas agora é preciso avançar na conteneirização do transporte de carga ferroviária, e isso é algo mais difícil de o setor privado fazer.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Marcelo Osakabe — De São Paulo, 20/09/2022