Os setores mais ligados à economia doméstica - varejo, consumo e construção - voltaram ao destaque da bolsa de valores, após o Banco Central (BC) deixar a porta aberta para novos cortes da taxa básica de juros. Na avaliação de gestores, mesmo com a alta vista no ano até aqui, acima até mesmo do Ibovespa, os papéis desses setores ainda têm mais a entregar em rentabilidade porque devem continuar se beneficiando diretamente do juro menor e da demanda dos investidores locais por ações.

O Ibovespa acumula, no ano, uma valorização de 18,72%. Todos os índices setoriais da B3 mostram uma performance melhor do que essa, mas são justamente os indicadores ligados ao ciclo local os que estão na liderança da rentabilidade. O Índice Imobiliário (Imob) ganha 35,54% no acumulado de 2019, enquanto o Índice de Consumo (Icon) avança 40,30%. Na lanterna estão o Índice de Materiais Básicos (Imat), com queda de 5,20% em 2019, e o Índice Financeiro (IFNC), que sobe 22,89%.

“Não apenas o fluxo de recursos vai continuar ajudando essas empresas [varejo e construção] pelo aumento da demanda, como o próprio resultado delas tende a melhorar com o menor custo da dívida, menor custo de capital e maior atratividade de novos projetos”, afirma Henrique Bredda, gestor da Alaska.

A performance de ontem converge com essa leitura. Entre as maiores altas do Ibovespa ficaram papéis como B2W (5,75%) e Via Varejo (5,26%), além de administradoras de shoppings, como Multiplan (3,53%) e brMalls (3,24%). A euforia após o comunicado do BC fez o Ibovespa subir 1,40% na máxima de ontem, aos 106.001 pontos, mas a pressão dos bancos e da Vale, na outra ponta, fez o índice zerar os ganhos no fim do dia - terminou com queda de 0,18%, aos 104.339 pontos.

Para Bredda, os estrangeiros devem continuar dando vazão na bolsa ao aumento da fatia de investidores locais, entre institucionais e pessoas físicas, considerando a expectativa de continuidade de queda do juro - e é nesses setores expostos ao ciclo doméstico que a alocação deve ganhar espaço. No ano até a última data disponível (17 de setembro), o investidor pessoa física está alocado em R$ 7,5 bilhões no mercado secundário (ações já listadas), enquanto o investidor institucional está com fluxo positivo de R$ 19,6 bilhões; os estrangeiros mantêm uma saída de R$ 20,3 bilhões do segmento.

“Vejo espaço para esses setores expostos à economia local andarem mais, até porque a nossa visão é de maior confiança com a cena doméstica do que o exterior”, afirma Jerson Zanlorenzi, responsável pela mesa de renda variável do BTG Pactual digital. “Setores tradicionais, como commodities, não têm tanta perspectiva de melhora porque o ambiente global, sobretudo quanto ao crescimento da China, ainda gera pressão.”

Zanlorenzi diz que as ações ainda dependem de um principal catalisador para experimentar uma reprecificação mais forte: o crescimento da economia. “Mas isso virá, em algum momento. Estamos começando um ciclo de expansão. Com mais estímulos monetários, a economia tem tudo para crescer algo como 2% ao ano e esses são os papéis em condições de capturar essa dinâmica.”

 

Fonte: Valor - Finanças, por Juliana Machado e Ana Carolina Neira | de São Paulo, 20/09/2019