O Banco Central (BC) deu continuidade ontem ao ciclo de cortes de juros, optando de maneira unânime por diminuir a Selic de 6% ao ano para 5,5%. O resultado, em linha com o esperado pelo mercado, levou o juro para nova mínima histórica. Ainda assim, a autoridade monetária afirmou que deve haver nova queda na próxima reunião. Além disso, não determinou limites precisos para o tamanho do ciclo de baixa de juros, alimentando especulações de analistas econômicos de que a taxa básica de juros pode terminar 2019 abaixo de 5%.
“A evolução do cenário básico e do balanço de riscos prescreve ajuste no grau de estímulo monetário”, disse o Comitê de Política Monetária (Copom) em comunicado divulgado após a reunião. “A consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir ajuste adicional no grau de estímulo.”
As projeções divulgadas no comunicado foram vistas, por alguns analistas econômicos, como uma indicação de que a Selic pode terminar o ano abaixo de 5%, embora o BC não faça essa afirmação. No cenário com a taxa básica em 5% até o fim de 2020, período mais relevante para a política monetária, a estimativa do Copom para a inflação do ano que vem está em 3,6%. O número é menor do que a meta, de 4%. Ou seja: a Selic abaixo de 5% neste momento não ameaçaria o cumprimento da meta. Esse cenário, porém, leva em conta a queda do dólar dos atuais R$ 4,10 para os R$ 3,90 projetados pelo mercado para o fim do ano.
Já em um cenário híbrido, com câmbio em R$ 4,05 e juros caindo a 5% ao ano, a inflação seria de 3,8% - mais perto da meta.
O Copom fez questão, entretanto, de ressaltar que a consolidação do “cenário benigno” é essencial para que haja um corte na próxima reunião. “Os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação”, disse.
As reformas e os ajustes considerados necessários, por exemplo, têm “avançado”. Mas enfatiza que “perseverar nesse processo é essencial para a queda da taxa de juros estrutural [aquela que leva ao máximo de crescimento da atividade sem gerar pressão inflacionária] e para a recuperação sustentável da economia”.
O risco inflacionário ligado ao andamento das reformas deixou de ser considerado “preponderante”, como era classificado em comunicados e atas anteriores. Ainda assim, ele permanece.
“Eventual frustração em relação à continuidade das reformas e à perseverança nos ajustes necessários na economia brasileira pode afetar prêmios de risco e elevar a trajetória da inflação”, disse. O risco “se intensifica no caso de reversão do cenário externo benigno para economias emergentes”. Em sentido oposto, “o nível de ociosidade elevado pode continuar produzindo trajetória prospectiva abaixo do esperado”.
Em relação ao setor externo, o Copom traçou um quadro menos otimista do que em reuniões anteriores. Até então descrito como “benigno”, agora o cenário internacional é visto como “relativamente favorável”.
“A provisão de estímulos monetários adicionais nas principais economias, em contexto de desaceleração econômica e de inflação abaixo das metas, tem sido capaz de produzir ambiente relativamente favorável para economias emergentes”, destacou o Copom. O cenário externo “segue incerto”, e riscos de desaceleração da economia global permanecem”. A próxima reunião do Copom será realizada nos dias 29 e 30 de outubro.
Fonte: Valor - Legislação & Tributos, por Estevão Taiar e Alex Ribeiro | de Brasília e São Paulo, 19/09/2019

