O cenário está bem simpático para os nossos negócios”, diz o espanhol Isidro Diez, de 77 anos. Quem circula por São Paulo tem boas chances de já ter lido o nome da companhia dele por aí. É a demolidora Diez, uma das maiores da capital. Com o recente boom do mercado imobiliário, que está verticalizando quadras e mais quadras paulistanas, a empresa nunca trabalhou tanto. Se ela fazia cerca de 80 demolições por ano até 2019, de 2020 para cá a média anual subiu para 300.

Hoje imersa em quase 30 demolições, a Diez foi fundada em 1959 pelo pai de Isidro, que tinha o mesmo nome e morreu há mais de 30 anos. Também nascido na Espanha, o pai veio tentar a sorte no Brasil em 1952. O plano inicial era fincar raízes na Venezuela. Mas, antes de aportar naquele país, o navio que o trouxe da Europa fez escala em São Paulo. “Depois eu pego outro barco e vou para a Venezuela”, decidiu o espanhol, que acabou ficando por aqui. Três anos depois, vieram a mulher e os filhos.

“Estamos confiantes de que 2023 será um ano ainda melhor para o mercado imobiliário que 2021”, diz Ariel Frankel, da Vitacon

Atualmente, a Diez põe abaixo quadras inteiras em até 90 dias - em bairros como Sumaré e Vila Madalena não faltam exemplos. A demolição de um sobrado leva cerca de cinco dias. “Quando a empresa começou, eram no mínimo três meses”, lembra o dono. Isso porque as demolições, inicialmente, eram 100% manuais, na base de marretadas. Sequer havia caminhões basculantes, aqueles que descarregam o entulho sozinhos, ou maçarico de corte, que facilita o rompimento de vergalhões. Na falta de soluções do tipo, adotadas só a partir dos anos 1970, o jeito era esvaziar os caminhões com pás e se contentar com aquelas serrinhas para cortar ferro.

Marcelo Dzik, da Even, e Ariel Frankel, da Vitacon (foto abaixo): as incorporadoras exploraram a demanda do pessoal que aderiu ao regime híbrido de trabalho — Foto: Divulgação

Com o passar dos anos, surgiram equipamentos mais sofisticados, a exemplo das escavadeiras próprias para demolições, que aceleram o trabalho e diminuem os custos com folha de pagamento. Aquelas famosas bolas de demolição, atadas a guindastes, foram abandonadas na década de 1990. “Só podiam ser usadas quando não havia nenhuma outra construção em volta”, lembra Diez. “Porque depois de soltar uma bola do tipo não dá para saber onde e quando ela vai parar.”

Durante um bom tempo, os dois Isidros também se juntaram à turma do trabalho braçal. Hoje o que está vivo comanda a área comercial e o filho mais novo dele, o engenheiro Andrés Diez, de 29 anos, se encarrega da parte operacional. Também engenheiro, o primogênito, Pablo Diez, de 32, chefia a segunda empresa da família, a Brasolo. Fundada em 2010, essa é um desdobramento da primeira: é especializada em executar fundações, que ajudam a dar um novo destino para parte do entulho acumulado com as demolições. Registre-se que 96% dele é reciclado, de acordo com a demolidora.

“A Diez e a Brasolo já faturam quase o mesmo tanto”, diz Andrés. A família não revela quanto embolsa, nem quanto cobra pelos serviços que oferece. “Nenhum orçamento é igual ao outro, pois a complexidade nunca é a mesma”, Isidro desconversa. Para demolir parte do hotel Ca’d’Oro, em 2010, a companhia levou quase seis meses - com sua torre de 28 andares, o hotel no centro paulistano reabriu em 2016.

Incontáveis intervenções urbanas, a maioria delas em São Paulo, tiveram dedo dos Isidros. Foram eles que demoliram parte dos casarões históricos da avenida Paulista, por exemplo. A serviço do conglomerado espanhol Acciona, responsável pela construção da Linha 6-Laranja do Metrô, fizeram mais de 70 demolições para abrir espaço para as futuras estações.

Que o mercado imobiliário vive um momento de euforia, ninguém discute. Pelas contas do Secovi-SP, a capital paulista ganhou 81.841 novas unidades residenciais no ano passado, o que representa um salto de 36% em relação a 2020 (ou de 25% em comparação a 2019). O valor geral de vendas (VGV) correspondente passou de R$ 31,9 bilhões em 2019 para R$ 26,5 bilhões em 2020. No ano passado, pulou para R$ 40,6 bilhões. Até maio deste ano, foram lançadas 22.685 unidades residenciais, que totalizaram um VGV de R$ 11,7 bilhões.

As vendas se mantêm em alta desde 2016, sobretudo a partir de 2019, quando 49.224 unidades foram comercializadas na cidade. No ano seguinte foram 51.417 e, em 2021, 66.092. O boom se deve, sobretudo, ao período no qual a Selic se manteve em baixa - até chegar a 2% ao ano, em agosto de 2020. Mas a escalada dessa taxa e a inflação descontrolada não parecem ter jogado um balde de água fria no setor (pelo menos não até agora). Em maio deste ano, o último mês sobre o qual o Secovi-SP se debruçou, 6.838 novas unidades residenciais foram vendidas na capital. Equivale a um salto de 16,2% em relação ao mesmo

“O mercado imobiliário segue como um dos protagonistas no processo de recuperação da economia brasileira”, diz Luiz Antonio França, que preside a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, a Abrainc. “O brasileiro vê a compra do imóvel como uma forma de proteger parte do patrimônio da alta inflacionária e de obter ganhos reais no longo prazo.” Pelas contas da entidade, o total de novos imóveis comercializados aumentou 6,2% no primeiro trimestre de 2022, em comparação ao mesmo período do ano passado.

Não faltam críticos à verticalização que esse boom tem posto em marcha, por alterar o tecido dos bairros. Diz Veronica Bilyk, coordenadora do Pró-Pinheiros, entidade que une 12 associações de moradores de um dos bairros mais afetados pela onda: “Não tem um quarteirão livre de alguma construção”. A entidade criou um abaixo-assinado para convencer a prefeitura a evitar a edificação de um quadrilátero e, na tentativa de frear a verticalização na região, defende a revisão do Plano Diretor. “Não estamos dizendo que não admitimos nenhuma construção vertical, mas as construtoras perderam a mão. Estão descaracterizando o bairro.”

A queda do preço médio do metro quadrado em São Paulo, entretanto, sugere que o boom imobiliário pode estar perdendo força. A Loft Dados, o núcleo de pesquisas da startup Loft, analisou 176 mil vendas registradas pela prefeitura paulistana entre janeiro de 2019 e maio deste ano. E concluiu que o valor dos imóveis caiu 5,5%.

 

Fonte: Valor Econômico - Por Daniel Salles — Para o Valor, de São Paulo, 16/09/2022