A percepção de que o governo de Michel Temer ganhou força para enfrentar uma eventual denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) abriu espaço para a redução do prêmio embutido nos mercados de renda fixa e câmbio domésticos.

A diferença entre os juros longos e os trechos mais curtos - que serve de termômetro de risco - registrou ontem uma das maiores quedas diárias no ano. A chamada inclinação da curva de juros, medida na comparação entre a taxa do DI para janeiro de 2021 e do DI para janeiro de 2019, recuou 0,11 ponto percentual para 1,28 ponto. A queda foi a mais acentuada desde a baixa de 0,17 ponto em 23 de maio, poucos dias após a divulgação das conversas de Temer e o empresário Joesley Batista.

O movimento na renda fixa foi puxado em grande parte pela queda dos vértices mais dilatados. A taxa do DI para janeiro de 2021, por exemplo, renovou a mínima histórica, ao cair para 9,080% no fim da sessão regular, ante 9,200% no ajuste anterior. A perspectiva positiva também se estendeu para o câmbio. E o dólar chegou a sua quinta baixa consecutiva, terminando o dia cotado a R$ 3,1191, com queda de 0,57%. Este é o menor nível desde a sessão de 3 de agosto, quando registrou R$ 3,1128.

A visão no mercado é que as provas que serviriam de base para uma nova ofensiva da PGR contra Temer perderam credibilidade. Isso porque o próprio procurador-geral Rodrigo Janot alertou sobre possíveis irregularidades no acordo de delação premiada de executivos da JBS. Com isso, uma denúncia teria poder menor de enfraquecer a governabilidade do presidente ou travar a tramitação das medidas econômicas no Congresso, como ocorreu na acusação inicial, posteriormente derrubada, de corrupção passiva. 

"Agora, a leitura é de que, ainda que a denúncia ocorra, ela não contará com a credibilidade do Congresso", explica o sócio e gestor da Modal Asset, Luiz Eduardo Portella. A queda dos juros e do dólar refletem esse movimento de retirada do "risco de cauda".

Janot tem até o dia 17 de setembro para apresentar a denúncia, antes de deixar o cargo. E agora o governo parece ter ganhado mais argumentos para "desqualificar as provas que venham da JBS", diz o trader de renda fixa Matheus Gallina, da Quantitas. Nesse arcabouço, poderia até entrar a iniciativa do Congresso Nacional de instalar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito para apurar, entre outras questões, os procedimentos do acordo de delação premiada da JBS.

A perspectiva sobre a denúncia, entretanto, não se traduz linearmente em ganho de apoio para aprovação da reforma da Previdência. E a proximidade das eleições aumenta o risco de a medida não ser apreciada ou ter seu conteúdo reduzido. "A chance de uma reforma é maior hoje do que era antes desse episódio, mas não retornamos para o ponto em que estávamos antes da divulgação da delação", explica a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour. "Até porque o tempo passou."

Mesmo com a descompressão nas últimas sessões, as medidas de risco dos ativos domésticos ainda permanecem elevadas. Este é o caso do Credit Default Swap (CDS) do país, que serve de seguro contra calotes no mercado internacional. O custo do contrato de cinco do Brasil caiu a 188 pontos-base ontem, renovando a mínima desde o final de 2014, de acordo com dados da Markit. O movimento recente foi até mais positivo que dos pares. No entanto, a queda acumulada de 17 pontos desde meados de maio é mais fraca que de outros emergentes. O valor do CDS do México caiu 22 pontos para 99 pontos, e o da África do Sul recuou 25 pontos para 170 pontos.

A importância das reformas também diz respeito à sustentabilidade da Selic em níveis baixos. Hoje, o Banco Central anuncia sua decisão de juros, com expectativa quase consensual de corte de 1 ponto percentual da Selic, para 8,25% ao ano. A dúvida diz respeito, justamente, à sinalização da autoridade monetária para o fim do atual ciclo de flexibilização monetária. 

Por mais que ainda se espere sinais mais claros para reforma da Previdência, os agentes financeiros podem tomar a criação da Taxa de Longo Prazo (TLP), aprovada ontem no Senado, como argumento para apostar na ampliação da queda da taxa básica de juros. Atualmente, precifica-se na renda fixa que a taxa cairia a cerca de 7,25% no fim do ano.

Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata e Lucinda Pinto, 06/09/2017