O PIB do segundo trimestre de 2020 apresentou queda de 9,7% contra o trimestre anterior, com ajuste sazonal. Pela ótica da produção, cujas informações antecedentes são mais completas, o PIB trouxe poucas surpresas: o setor agropecuário teve uma alta modesta de 0,4%, tendo sido pouco afetado pela pandemia, o setor industrial caiu 12,3% e o setor de serviços caiu 9,7%.
Quando falamos que o resultado foi dentro do esperado, estamos nos referindo aos constantes ajustes que são feitos nas projeções à medida que os indicadores antecedentes vão sendo divulgados. No entanto, se recuarmos no tempo para o fim de 2019, o esperado pela pesquisa Focus do Banco Central era uma variação de +2,2% no 2º trimestre de 2020 contra o mesmo período do ano anterior e um crescimento de 2,3% no ano fechado de 2020. Dessa forma, o que ocorreu em 2020 foi uma queda absolutamente sem precedentes, que decorreu da pandemia.
Olhar o PIB pela ótica da absorção nos ajuda a entender o que aconteceu. O consumo das famílias caiu impressionantes 13,5% na comparação com o mesmo trimestre do ano passado. O investimento caiu 15,2% e o consumo do governo caiu 8,6%. Quedas de magnitude semelhante ocorreram também na variação trimestral com ajuste de sazonalidade. Dessa forma, o efeito negativo da pandemia ficou concentrado no segundo trimestre. Devemos lembrar que a quarentena começou no meio de março na maioria das cidades brasileiras e os meses de abril e maio apresentaram os menores índices de mobilidade social. O que de fato aconteceu foi que as famílias se refugiaram em casa e pararam de consumir, principalmente serviços. Os prestadores de serviço sofreram o impacto da diminuição de renda e reduziram seu consumo e as firmas também demandaram menos serviços pois seus funcionários ficaram em casa. Além disso, a maior incerteza e o fechamento de muitas lojas físicas representaram um freio importante no consumo de bens, principalmente os de maior valor como veículos, cujas vendas chegaram a cair 76% em abril, pior mês. Todos esses efeitos foram se propagando na economia como uma bola de neve.
Nesse contexto, a política econômica foi agressivamente expanisonista para tentar mitigar a recessão imposta pela pandemia. O Banco Central reduziu fortemente a taxa de juros e o governo decidiu fazer uma enorme transferência de renda para as famílias mais afetadas pela quarentena, ou seja, para os trabalhadores informais e de baixa renda. A injeção direta de renda deve totalizar R$ 350 bilhões em 2020, ou seja, aproximadamente 5% do PIB. Isso, sem contar os estímulos indiretos como crédito subsidiado, ajuda para manutenção do emprego, transferências para estados e municípios, etc.
No entanto, apesar da enorme transferência de renda, o PIB ainda caiu. A explicação reside no fato que as classes média e alta reduziram o consumo e aumentaram a poupança. A taxa de poupança saltou de 14,1% do PIB no 1º trimestre de 2020 para 15,5% no 2º trimestre. Isso significa que a queda do consumo agregado foi maior do que a queda da renda agregada. Supondo que as famílias de baixa renda tendem a consumir praticamente 100% das transferências recebidas, o aumento da poupança deve ter vindo das classes mais favorecidas. Para o futuro, à medida que as coisas forem se normalizando, é provável que o consumo volte a aumentar e a taxa de poupança volte a se reduzir, mitigando os efeitos do fim da transferência de renda. Sendo assim, as perspectivas para os próximos trimestres são positivas, ou seja, devemos ter quedas menores na comparação com o ano anterior e altas na comparação trimestral, com ajuste sazonal. Para o ano fechado, projetamos queda de 4,5% do PIB.
Para os prazos mais longos, o cenário se torna incerto novamente. Vai depender do encaminhamento da questão fiscal, que, com a pandemia, piorou muito. A relação dívida pública/PIB deve subir 20 pontos percentuais em 2020. Essa relação não pode continuar subindo para sempre, sob pena de perdermos todo avanço que tivemos na inflação e juros baixos. É preciso também restaurar a confiança dos agentes e investidores que, nos últimos anos, têm deixado Brasil. Portanto, para ficarmos mais otimistas com os prognósticos de longo prazo, precisamos fazer reformas que tornem possível estabilizar o endividamento do país.
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Fernando Rocha, 02/09/2020

