O mercado de terceirização no Brasil passa por uma prova de fogo em 2015. Com a recessão, os clientes estão revendo contratos de prestação de serviços para enxugar custos, enquanto no ambiente regulatório, o Projeto de Lei 4.330, em tramitação no Senado, pode abrir mais oportunidades de negócios ao liberar as parcerias de trabalho em qualquer segmento da economia.
"Nesse momento de crise, a percepção é de uma redução de 15% a 20% no volume de trabalhadores e no faturamento das empresas", avalia Vander Morales, presidente do Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços Terceirizáveis e de Trabalho Temporário do Estado de São Paulo (Sindeprestem) e da Federação Nacional dos Sindicatos de Empresas de Recursos Humanos, Trabalho Temporário e Terceirizado (Fenaserhtt). Para especialistas do setor, a maré baixa deve ser combatida com a adequação dos contratos de serviços às necessidades dos clientes.
Ao mesmo tempo, tendências do mercado apontam para áreas menos vulneráveis, que podem ajudar a diminuir as despesas dos contratantes, como logística, limpeza, controle de acesso e manutenção de máquinas. O mercado de terceirização no Brasil é composto de 790 mil companhias, a maioria de pequeno porte, que faturam R$ 536 bilhões ao ano, de acordo com pesquisa do Sindeprestem e da Fenaserhtt. O setor emprega 14,3 milhões de trabalhadores formais ou 32,5% do total com carteira assinada no país. É a primeira vez que as duas entidades fazem uma análise com todos os 13 segmentos conhecidos desse mercado e, por isso, não há referências para comparação com o período anterior. Mas, para se ter uma ideia, no estudo de 2013, com apenas nove setores, o faturamento da área alcançou R$ 65,3 bilhões, ante R$ 54,7 bilhões de 2012, um aumento de 19%.
De acordo com o levantamento, a maior concentração de empreendimentos está nos serviços especializados, que incluem consultoria em recursos humanos e de estágios, com 34 mil empresas, antes de manutenção e engenharia (20 mil companhias) e telemarketing (10 mil). "Um dos nossos principais problemas é a falta de regulamentação, o que provoca insegurança jurídica para prestadores e tomadores de serviços", explica Morales. "Apesar da sua importância para a economia, a terceirização ainda caminha sem uma norma legal."
Esse cenário deve sofrer alterações importantes nos próximos anos por conta do Projeto de Lei 4.330, em tramitação no Senado. A legislação, caso aprovada, vai permitir a terceirização em qualquer setor da economia e deve a brir novas janelas para empresários entrantes. Hoje, as companhias só podem terceirizar atividadesmeio, como limpeza, manutenção ou segurança.
Para não perderem o bonde do crescimento, Morales acredita que, além de um cenário econômico mais favorável, os atores desse mercado vão precisar de mais capacitação profissional. Com o aumento do nível de desemprego, há alta disponibilidade de mão de obra, mas a falta de qualificação continua sendo obstáculo importante. Mesmo em um ano de retração, o especialista observa setores aquecidos, como promoção e merchandising, logística, limpeza e controle de acesso.
"As empresas devem investir na relação com o cliente, saber suas dificuldades e o que, como prestadores, podem oferecer", afirma. "O mercado quer soluções inovadoras. Vale a pena identificar novos contratos em áreas que o competidor já conhece." Segundo Morales, cerca de 75% das grandes companhias contratam a prestação de serviços especializados. Entre as organizações de tamanho médio, esse percentual chega a mais de 60% e, nas pequenas, ultrapassa os 40%.
Luiz Barretto, presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), afirma que, apesar de uma situação macroeconômica mais difícil, o empreendedorismo no segmento vai continuar, por três motivos. O primeiro é a introdução da figura do microempreendedor individual (MEI), que facilita a abertura de novos negócios, estimulados pela
expansão do Simples Nacional para atividades de serviços.
"A segunda razão é que, em momentos de crise, as empresas precisam diminuir os custos. E terceirizar parte do processo produtivo pode ajudálas", diz. Já o terceiro gatilho aparece por conta da especialização cada vez maior dos empreendimentos. Os empresários focam nas áreas em que têm knowhow e chamam parceiros para atividades paralelas. "Há caminhos promissores, como o de serviços de pesquisa e desenvolvimento, design e softwares customizados, além de ontabilidade, instalação e manutenção de máquinas." Para quem pretende sobreviver na área, a dica de Barretto é não depender de um único cliente. "O ideal é aproveitar as oportunidades de trabalho para aprender com grandes grupos, ganhar escala e acessar outros mercados", diz.
Na Genter, de terceirização de mão de obra executiva, recrutamento e seleção, a orientação foi seguida à risca, desde a fundação da empresa, há quatro anos. Com 36 funcionários, formou uma carteira com 17 clientes, a maioria de multinacionais, como Accenture e Burger King. Segundo a diretora Irina Bezzan, a companhia faturou R$ 6 milhões no ano passado. "Adequamos os projetos às necessidades dos contratos e a expectativa, este ano, é superar R$ 8 milhões de faturamento."
A empresária afirma que a crise está levando os clientes a cortar custos e rever contratos com todos os fornecedores. "Para manter as nossas contas, também fizemos uma revisão de honorários de forma agressiva." Dentro de casa, fez substituições na equipe, para deixála mais eficiente, reforçou o nível de senioridade dos gestores e fortaleceu a área de vendas. Em 2016, a ideia é expandir os serviços para o Nordeste.
Ao ser contratado, Barretto, do Sebrae, diz que é importante que o pequeno negócio mantenha funcionários capacitados e uma boa coordenação financeira para honrar os contratos. Especialistas em recursos humanos ressaltam que a terceirização se mostrou um mecanismo eficiente para rebaixar a remuneração dos empregados terceirizados em alguns casos, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta redução de 27% nos salários. "É necessário buscar formas de adequar a legislação às novas formas de trabalho que surgiram, criando modelos vantajosos para o empregador e os mpregados."
Fonte: Valor - Empresas, por Jacilio Saraiva, 31/08/2015

