A baixa produtividade nas empresas brasileiras está mais relacionada a fatores culturais do que a falhas na educação formal. A falta de confiança endêmica dentro e fora das organizações cria uma distância muito grande entre quem está no topo planejando tarefas e quem as executa no dia a dia. Essa realidade afeta a nossa produtividade e nos derruba nos rankings globais de inovação, uma vez que a desconfiança faz com que gestores não dividam metas e não acreditem que as pessoas sejam capazes de dar conta do recado. O resultado é uma gestão baseada em controles excessivos que acabam inibindo a criação de algo realmente novo.
Essa é uma das constatações de um amplo estudo chamado "Confiança e Produtividade no Brasil", realizado pelos pesquisadores Marco Tulio Zanini e Carmen Migueles, ambos professores doutores da Ebape/FGV e da Fundação Dom Cabral, também sócios-fundadores da consultoria Symbállein. Ao longo de 16 anos, eles estudaram 40 empresas de grande e médio portes buscando isolar os fatores que explicam o baixo desempenho da economia e das organizações brasileiras, tendo como referência os principais rankings globais (Banco Mundial, OCDE, OMPI e Fórum Econômico Mundial).
Foram aplicados 1.620 questionários que geraram a maior base de dados do mundo sobre confiança em empresas privadas, segundo os pesquisadores. Carmen explica que desde a década de 80 estudiosos procuram entender a relação entre cultura e desempenho econômico, mas pela primeira vez nesse estudo eles conseguiram isolar os aspectos culturais que influenciam a capacidade das organizações de aumentar a sua produtividade. Isso rendeu aos autores uma indicação ao prêmio "Emerald Best International Symposium" no congresso anual da "Academy Of Management", um dos eventos mais importantes na área de administração do mundo, que aconteceu em agosto, nos EUA.
A análise incluiu também pesquisas específicas no Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e no Hospital Albert Einstein porque, segundo os pesquisadores, se tratavam de organizações com um alto grau de confiança e pouca distância hierárquica. "Embora o Bope tenha uma estrutura militarizada, ele consegue trabalhar por gestão compartilhada, o que é atípico no Brasil" diz Marco Tulio.
Os autores identificaram o que chamam de "passivos organizacionais" da cultura brasileira que consomem tempo, energia e que resultam em perdas de competitividade e produtividade. Entre eles, está a distância entre o poder e a base, a baixa confiança que faz com que exista um excesso de regras e controles que engessam a cooperação interna, a pouca disciplina pessoal e o foco exagerado no curto prazo.
"O modelo de gestão nas organizações brasileiras é extremamente reativo, porque existe um compromisso muito baixo com a execução do planejamento estratégico", diz Carmen. "Com esses comportamentos, caímos em uma espiral viciosa de perda de produtividade que se reforça com o tempo e que não é mensurada, o que gera retrabalho ou a incapacidade de manter uma manutenção preventiva."
Fonte: Valor - Empresas, por Stela Campos , 30/08/2018

