"O conhecimento é importante, mas não é prioridade. Já vi muita pessoa com conhecimento ser pessimista, desagregadora e incapaz de transformar conhecimento em atitude. Sempre preferi o oposto. Prefiro até quem tem menos conhecimento, mas tem atitude, que toma iniciativas, que sabe correr riscos. É positivo e agregador". Foi em tom motivacional que o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), pregou ontem a "esperança" no futuro a uma plateia de mais de 300 varejistas, na capital paulista. Aos empresários, o tucano disse que a confiança na retomada da economia "vai mobilizar" as pessoas para a eleição de 2018 e pediu à audiência que se posicione sobre a escolha partidária e "vire o jogo".

"Esta transformação começa agora (...) Aproveitem essa oportunidade. Virem o jogo do Brasil e se posicionem", afirmou. Cotado como pré-candidato à Presidência, Doria disse que está "cumprindo seu papel" na prefeitura e que não tem medo do enfrentamento. "Não tenho medo desse enfrentamento e não me apresento como candidato à presidência da República, vou deixar claro. Eu me apresento como prefeito eleito de São Paulo e brasileiro", disse, despistando sobre as eleições de 2018.

Durante os quase 40 minutos de palestra, no entanto, Doria adotou um discurso semelhante ao de um candidato, alternando crítica à esquerda a incentivos de palestrante motivacional, próximos ao da auto-ajuda. "O pessimismo leva você para baixo, coloca uma âncora, enquanto o otimismo coloca esperança. Temos a oportunidade de exercitar a esperança, de colocar o otimismo no horizonte e começar o esforço redobrado para retomar vendas, iniciativas, programas, propostas, mobilização, confiança, passar mensagens positivas".

Em seguida, incentivou os empresários a se abraçarem e terem fé. "Certamente neste evento outros vão falar: abracem-nos e acreditem. Porque se todos nós fizermos um movimento favorável, com confiança e com crença... E agora temos razões para isso. Agora o clima e o horizonte nos permitem ter otimismo".

Doria negou que esteja buscando se aproximar do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em busca de apoio na disputa dentro do PSDB para definir quem será o candidato à Presidência em 2018. No entanto, não deixou claro que o Lide, grupo empresarial que fundou, deve fazer em setembro uma palestra com o ex-presidente.

"A minha relação com o [ex-] presidente Fernando Henrique Cardoso sempre foi de muita estima e admiração. Fui procurá-lo, tivemos um encontro muito proveitoso, muito bom. Estaremos juntos até na semana que vem, em um almoço. Gosto muito do [ex-] presidente Fernando Henrique Cardoso, mesmo quando, em alguma circunstância, ele não me apoiou e nem sequer votou em mim", afirmou, lembrando que o ex-presidente tucano não respaldou sua candidatura em 2012.

Indagado sobre quem seria o melhor candidato do PSDB para disputar a Presidência, Doria se esquivou. "Aquele que tiver a melhor posição perante a opinião pública. Para o prefeito, a decisão não cabe "nem a cacique, nem a comandante", mas ao povo. "Sintonizem com o povo e terão um candidato competitivo e, quiçá, vencedor".

Ao tentar nacionalizar seu discurso, o prefeito responsabilizou os expresidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff pela "destruição da economia". Doria citou ainda a corrupção na Petrobras e sugeriu "prisão perpétua" para Lula e Dilma. O prefeito culpou também as administrações do PT pelo recorde de desemprego no país.

No mesmo dia em que Doria discursou para empresários, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, também cotado como pré-candidato à Presidência do PSDB, articulou-se com 30 prefeitos do interior paulista, de cidades com maior peso na arrecadação do Estado, como Ribeirão Preto, para começar a amarrar as propostas para área econômica, de um eventual programa de governo. No encontro, o cientista político tucano Luiz Felipe D′Avila fez uma apresentação sobre os principais problemas da economia. Uma das principais bandeiras a serem defendidas por Alckmin será a retomada do emprego e renda.

Para defender sua candidatura, o governador tem se mostrado como mais experiente do que Doria. "Alckmin é a alternativa natura do PSDB para 20118. É estável, equilibrado, está habilitado para a disputa e tem experiência", disse o prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, exsecretário de Alckmin. "Não precisamos de personalismo", afirmou Barbosa, que participou do encontro.

Na segunda-feira, Alckmin reuniu-se com prefeitos da região metropolitana e baixada Santista na casa do prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB). O prefeito da capital, não foi convidado.

Alckmin pediu aos prefeitos, filiados ao PSDB e ao PSB, para participarem das discussões do plano de governo. O governador falou também sobre a sucessão estadual, no jantar com a presença dos prefeitos de Santo André, São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Santos, além do
anfitrião, de São Bernardo do Campo. Participaram também o presidente do diretório estadual, deputado Pedro Tobias, e o secretário da Casa Civil, Samuel Moreira.

Ontem, as discussões em torno da sucessão estadual continuaram durante visita de prefeitos ao vice-governador do Estado e presidente do PSB estadual, Marcio França. A ala tucana ligada a Alckmin defende o lançamento de uma chapa "puro sangue" e descartam tanto o apoio a um candidato do PMDB, como pregam tucanos próximos a Doria, quanto à candidatura de França, como quer o PSB.


Fonte: Valor - Política, por André Guilherme Vieira e Cristiane Agostine, 30/08/2017