A Caixa voltou ao ritmo de negócios anterior à pandemia, depois de ter quase paralisado a oferta de serviços em abril e maio para se concentrar no pagamento do auxílio emergencial. Isso não significa que o impacto da crise tenha ficado para trás, e o banco ainda prevê um aumento da inadimplência nos últimos meses do ano.

“Já vimos o pior da crise, mas certamente vamos aumentar as provisões [contra perdas no crédito]”, disse ao Valor o presidente da Caixa, Pedro Guimarães.

No quarto trimestre, vence grande parte das prorrogações de 180 dias nos contratos de crédito na pandemia, e é provável que nem todos os clientes consigam normalizar seus pagamentos. Isso deve exigir do banco um novo aumento das reservas contra calotes e um programa de renegociação desses atrasos, especialmente no financiamento habitacional, que já vem sendo desenhado.

Atenuando esse impacto, a Caixa pode ter a seu favor, nos próximos meses, receitas extraordinárias de desinvestimentos. A instituição deve concluir nesta quinta-feira a venda de ações preferenciais do Banco Pan e está previsto para ocorrer em setembro ou outubro o IPO da Caixa Seguridade. Até o fim do ano, também entram no caixa do banco cerca de R$ 10 bilhões relativos às joint ventures em seguros.

O ambiente de negócios também está mais positivo. “A demanda por serviços e crédito está mais forte agora do que antes da pandemia”, afirmou Guimarães.

De acordo com o executivo, o banco praticamente “parou” as atividades comerciais em abril e maio, quando as pessoas deixaram de ir às agências para contratar serviços e o atendimento ficou voltado ao auxílio emergencial - as atividades já retomaram o fôlego de junho em diante.

Com isso, houve impacto na receita de serviços, enquanto a margem financeira foi afetada pela prorrogação dos contratos de crédito. Os dois itens foram decisivos para a redução do lucro do banco no segundo trimestre.

Entre abril e junho, a Caixa obteve lucro líquido de R$ 2,558 bilhões, o que representa uma queda de 16,1% em relação ao primeiro trimestre e de 39,3% ante o segundo trimestre do ano passado.

Na comparação interanual, a margem financeira recuou 31,8%, para R$ 9,615 bilhões no segundo trimestre. A receita de serviços caiu 18,8%, ficando em R$ 5,39 bilhões. As despesas administrativas, por sua vez, subiram 5,2% e chegaram a R$ 8,287 bilhões - pressionadas pela necessidade de reforço nas equipes das agências, aberturas da rede física aos sábados, compra de equipamentos de proteção e verbas de publicidade para divulgação do auxílio emergencial. “Gastamos em um trimestre quase todo o orçamento de propaganda do ano para esclarecer a população”, afirmou Guimarães.

Apesar disso, o executivo ressaltou que a busca por eficiência não mudou, e, se olhado o primeiro semestre todo, as despesas operacionais recuaram 0,8%.

O banco também contabilizou, entre abril e junho, R$ 2,817 bilhões em despesas com provisões para devedores duvidosos (PDD), alta de 40% em relação ao primeiro trimestre, com o aumento do risco de crédito na pandemia. Na comparação com o mesmo intervalo do ano passado, houve queda de 17,1%, mas os números não são muito comparáveis porque, naquele momento, a Caixa fez ajustes em seu balanço. “Vamos fazer reforços à medida que houver necessidade”, disse.

De acordo com Guimarães, a composição da carteira do banco, com perfil de longo prazo e 88% coberta por garantias reais, ajuda a proteger o balanço. “Nossa carteira é pouco sensível à pandemia”, afirmou.

A Caixa chegou à metade de 2020 com R$ 720,08 bilhões em sua carteira de crédito, 2,9% superior ao saldo de março e 5,5% maior que o de junho do ano passado. Financiamentos habitacionais e operações com micro, pequenas e médias empresas impulsionaram o crescimento. O banco fez R$ 100,453 bilhões em contratações no segundo trimestre, o maior volume para esse período em quatro anos.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Talita Moreira e Álvaro Campos - São Paulo, 27/08/2020