Ainda longe de ter um controle efetivo da pandemia e com o maior número de casos de covid-19 na América Latina, o Brasil tem mostrado desempenho melhor da atividade econômica no curto prazo frente a seus pares da região, graças a uma dose maior de estímulos fiscais e monetários. O grande destaque é o auxílio emergencial de R$ 600. Não só a queda do PIB no segundo trimestre deve ser menor por aqui, mas também a recuperação desenhada pelos dados recentes de alta frequência tem sido mais expressiva.

Tomando como ponto de partida o quarto trimestre de 2019, o Brasil é, ao lado do Chile, o país em que a economia deve encolher menos de abril a junho, com retração de 10,6%, segundo projeção do UBS. Na lanterna, o PIB do Peru deve ter diminuído 27,7% em igual intervalo. No México, o tombo também deve ser grande, de 19,3%, e, na Colômbia, onde o número já é conhecido, o PIB recuou 16,9%.

Todos os resultados devem ser a pior queda trimestral já vista em cada país. Como o fundo do poço foi sem precedentes, é normal que haja reação acelerada no curto prazo. E o Brasil também parece ter largado na frente.

Considerando indicadores análogos ao Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) para cada país, a economia brasileira é a que registra recuo menos intenso em junho ante dezembro de 2019, de 9,2%. Na ponta mais negativa, a economia peruana encolheu 21,1%, seguida de Argentina (-13,6%), Chile (-13,5%) e Colômbia (-12,2%). Para o México, o último número divulgado, de maio, mostra redução de 20,9%. Os dados foram levantados pela equipe econômica para a região do Barclays.

Índices de alta frequência também apontam maior dinamismo no Brasil. Segundo acompanhamento semanal feito pela Oxford Economics, na semana encerrada em 14 de agosto, a atividade no país estava 14,7% abaixo do nível pré-pandemia, em fevereiro. É a menor queda entre seis nações. Na média da América Latina, o índice recuou 0,8 ponto na última semana, enquanto houve alta de 1,3 ponto no Brasil.

O “tracker” da Oxford combina dados de mobilidade e pesquisas on-line por estabelecimentos do Google, além da taxa de crescimento semanal de mortes por covid-19 da Universidade Johns Hopkins. “O Brasil liderou a recuperação regional, depois de ter perdido terreno para o México desde meados de junho”, apontam os economistas Joan Domene, Marcos Casarin e Felipe Camargo.

Para especialistas, ao lado da reabertura econômica, a “vantagem” é explicada em grande parte pelo mais elevado grau de estímulos do governo brasileiro, com destaque para o auxílio emergencial a informais. Nos cálculos do UBS, os gastos com o benefício equivalem a 3,5% do PIB. No Chile, o programa de suporte à renda somou 1,5% do produto, ante 1,1% no Peru e 0,7% na Colômbia, destaca Rafael De La Fuente, economista-chefe para América Latina do banco, excluindo o Brasil.

Justamente por terem imenso custo aos cofres públicos, os estímulos terão que ser retirados em algum momento, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade da retomada. Economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski afirma que a continuidade da reação depende muito de como a questão fiscal será tratada. “O mesmo fiscal que ajuda hoje pode ser o que atrapalhará amanhã”, diz ele. No cenário do banco, em 11,8% do PIB, o déficit primário do governo brasileiro será o mais alto entre sete países da região em 2020.

“O ‘coronavoucher’ brasileiro é muito maior em porcentagem do PIB do que os outros países fizeram para ajudar famílias vulneráveis”, afirma De La Fuente, do UBS. Ele acrescenta que o Brasil também pode ter se beneficiado por ter uma extensa rede de programas sociais, o que facilitou a localização dos beneficiários e o envio do dinheiro. “Outros países, como o Peru, têm capacidade administrativa mais limitada para estender programas sociais em grande escala e em tempo hábil”, explica ele.

Enquanto a economia peruana deve ter caído 27% entre o primeiro e o segundo trimestres, com ajuste sazonal, Tony Volpon e Fabio Ramos, economistas do UBS para o Brasil, esperam contração de 9,2% para o país em igual período. Em termos anualizados, o ‘coronavoucher’ teve impacto de cerca de 8,5% do PIB, calculam. “O Brasil foi um dos países que fizeram mais estímulos na América Latina e no mundo, e é óbvio que isso terá consequências”, diz Ramos, referindo-se à possibilidade de desaceleração brusca da atividade quando as medidas forem retiradas e ao risco fiscal crescente.

Pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) e economista-sênior da LCA Consultores, Bráulio Borges avalia que, dado o tamanho do pacote fiscal brasileiro, que deve elevar a relação dívida bruta/PIB em 20 pontos percentuais, seu efeito econômico deveria ter sido maior. “A política econômica parece ter tido êxito em impedir tombo muito severo da atividade, mas poderíamos ter um resultado melhor”, diz ele, para quem isso poderia ser alcançado com melhor direcionamento dos benefícios, que também acabaram sendo pagos a funcionários públicos, militares e pessoas de renda alta. Neste ano, a dívida bruta deve ficar na casa de 95% do PIB.

Feita essa ponderação, Borges acrescenta que a Selic em nível historicamente baixo também já ajuda a atividade no curto prazo. Um dos setores que mais sofreram na recessão de 2015 e 2016, a construção civil já está sentindo os efeitos dos juros baixos, afirma ele. “Agora a coisa muda de figura e esse setor pode ser um impulsionador, o que tem a ver com o juro real praticamente zerado.”

O diretor de pesquisa para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, nota que o Brasil foi um dos países que mais usaram estímulos monetários na região. “O BC brasileiro cortou os juros mais agressivamente, enquanto o Banco do México, por exemplo, tem manejado a política monetária com cuidado em excesso.” Outros países também levaram suas taxas de juros a níveis não vistos antes, como Chile (0,5%) e Peru (0,25%).

O ambiente global foi muito favorável para que os juros fossem reduzidos na América Latina, afirma Ramos. Alguns países da região, inclusive, chegaram a flertar com medidas monetárias até então consideradas não tradicionais, como compras de títulos públicos no mercado secundário.

Para o economista, diante de um ambiente inflacionário favorável, uma política monetária “ultraestimulativa” deve perdurar na região por longo período. Do lado negativo, a alta dose de estímulos fiscais e seu impacto sobre as contas públicas demanda ajustes à frente. “Os números de atividade de maio e de junho surpreenderam positivamente, mas é preciso pensar até que ponto isso é sustentável. Há uma dose massiva de política fiscal. Esse PIB não nasceu sozinho.”

Secemski, do Barclays, avalia que a incerteza sobre o futuro do teto de gastos e a trajetória da dívida pode afetar negativamente os ativos locais e a confiança dos agentes, o que elevaria os prêmios de risco.

 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Victor Rezende - São Paulo, 24/08/2020