O mercado reagiu com ceticismo à proposta de fusão entre Gafisa e Tecnisa. Combinações de negócios entre incorporadoras não têm um histórico muito favorável e as sinergias da operação não estão muito claras.

As ações da Gafisa fecharam o dia em baixa de 6,52%, cotadas a R$ 5,16. Os papéis da Tecnisa recuaram 5,55%, para R$ 10,55. O Ibovespa caiu 1,19%.

Um gestor de fundos imobiliários afirma, reservadamente, que não vê muito espaço para sinergias em custos fixos - uma das vantagens da operação alegadas pela Gafisa. Na visão dessa fonte, não é tão simples capturar ganhos no processo porque cada empreendimento tem peculiaridades de local, projeto e público-alvo.

Onde há algum espaço para economia, de acordo com essa fonte, é no segmento de baixa renda - em que a Tecnisa atua, mas a Gafisa, não. “Incorporação é um negócio que tem deseconomia de escala”, afirma.

Outro ponto que desperta dúvidas é como ficaria a gestão da empresa combinada. Incorporação costuma ser uma atividade em que o “olho do dono” é importante, diz um gestor.

Um aprendizado da última crise do setor, na visão de fonte ligada a um banco, é que a concentração geográfica costuma ser positiva nesse mercado. No boom imobiliário do início da década, algumas incorporadoras expandiram suas operações Brasil afora, mas não conseguiram rentabilizar esses negócios porque o mercado imobiliário tem nuances regionais e poucas sinergias. Nesse aspecto, Gafisa e Tecnisa têm atuação principalmente em São Paulo e no Rio.

Apesar disso, não há preocupações com a operação do ponto de vista financeiro. Outro executivo de banco lembra que as empresas são pequenas e a exposição a elas é baixa. Um gestor também diz que ambas se capitalizaram e reduziram muito a alavancagem.

Numa apresentação sobre o racional do negócio, a Gafisa apontou que o caixa combinado seria de R$ 1 bilhão e haveria sinergias em áreas como gestão e processos, sistemas e infraestrutura, e área administrativa, além de melhor acesso ao mercado de capitais.

A ideia da fusão teria partido de uma provocação feita pelo Banco Máxima, apurou o Valor. Agora, a Gafisa está selecionando um banco para assessorá-la. Há conversas avançadas com o Credit Suisse. (Colaborou Chiara Quintão)


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Talita Moreira- São Paulo, 20/08/2020