Passado o período mais turbulento que a Sabesp enfrentou com a crise hídrica e o estresse econômico-financeiro, o comando da empresa se dedica a aprimorar políticas internas no que diz respeito aos contratos de concessões, além de tocar negociações importantes como a renovação da outorga do Cantareira e a revisão tarifária prevista para abril de 2017. Dentre mudanças já implementadas, o presidente da companhia, Jerson Kelman, disse ao Valor que a empresa adotou uma política de não realizar investimentos pesados em municípios sem contrato. Além disso, implementou um novo modelo de contrato que permite a aplicação de uma tarifa local.

Os desafios a serem enfrentados, segundo o executivo, variam conforme a área de concessão. No interior do Estado, a avaliação é de que foram feitos os investimentos necessários para um atendimento de primeiro mundo. Já na região metropolitana da capital, Kelman destaca que há, de um lado, uma série de investimentos a serem feitos que esbarram na limitação da receita e, de outro, os assentamentos irregulares. Na região litorânea, diz, a Sabesp precisa encontrar uma maneira de neutralizar a grande variação populacional. "No verão, a população dessas cidades multiplica por três ou quatro. É difícil viabilizar, com a estrutura tarifária existente, o atendimento desses picos de demanda."

Desde 2015 a empresa tornou público que tem se dedicado a estudar mudanças na estrutura tarifária. O que não se sabe ainda é se uma proposta formal será parte da revisão tarifária prevista para abril de 2017. O diretor econômico­financeiro da empresa, Rui Affonso, disse para investidores e analistas na terça­feira que depende da Arsesp, agência reguladora do setor no Estado de São Paulo, definir se o assunto será objeto da revisão. Disse ainda que, se for o caso, a empresa tem condições de apresentar uma  proposta, embora ainda não tenha um projeto pronto.

A empresa tem estudado diversas alternativas para enfrentar as dificuldades encontradas na estrutura tarifária. No caso da diferença de demanda sazonal no litoral, Kelman diz que poderia ser aplicada, por exemplo, uma tarifa mais alta em janeiro e menor em julho. Um modelo que permite compensação para o morador local. Mas lembra que as alternativas são várias. Enquanto mudanças na estrutura de tarifa estão sob estudo, alguns aprimoramentos de política já estão sendo implementados. "Estamos muito preocupados em só fazer investimentos vultosos nos municípios com os quais nós temos contrato", disse, lembrando que durante muito tempo a Sabesp colocou valores importantes em cidades sem contratos.

Em 30 de junho, a empresa tinha 54 contratos de concessão vencidos, todos em fase de negociação com os municípios. Até 2030,  venceriam outros 35. Além disso, a empresa adotou um novo modelo contratual em que é possível negociar uma tarifa local, o que pode ajudar a acomodar interesses de concessões de diferentes perfis. Em alguns casos, diz o presidente, a autoridade municipal pode querer uma velocidade de investimentos maior que a capacidade financeira da empresa com a tarifa vigente, o que levaria a um desequilíbrio do contrato. Em casos como esse, a tarifa local pode ser a alternativa: "A Sabesp não se recusa a pegar uma cidade e em cinco anos deixar um brinco. É possível, até porque existe capacidade técnica, mas a velocidade depende de algum outro auxílio externo, que poderia ser subsídio do governo ou, por exemplo, uma tarifa local."

Ao longo dos últimos dois anos, a Sabesp enfrentou a pior seca da história no Sudeste e teve de adotar várias medidas, dentre elas a realização de investimentos volumosos em obras emergenciais, ao mesmo tempo em que via sua receita diminuir com a redução da oferta de água. Em 2012 e 2013 a companhia contava com ganhos líquidos da ordem de R$ 2 bilhões. Em 2014, o lucro caiu para R$ 900 milhões. Em 2015, no auge da crise de abastecimento e com a crise econômica agravada, a última linha do balanço ficou em R$ 500 milhões. Já nos seis meses terminados em junho deste ano, a Sabesp soma R$ 1,4 bilhão de lucro líquido.


Fonte: Valor - Empresas, por Victória Mantoan, 18/08/2016