Os fundos de crédito privado convivem há 11 meses consecutivos com resgates e viram seu patrimônio reduzir em 45% no período. Depois de perdas muito fortes em abril e maio deste ano, as retiradas vêm diminuindo em junho e julho. Mas provavelmente o mês de agosto ainda deverá ser de captação reduzida.
Essas carteiras sofrem desde o ano passado, primeiro por um ajuste técnico depois que a alta demanda pelos papéis comprimiu demais os spreads. Quando a indústria tentava retomar o prumo, veio a pandemia e, com aversão ao risco, as taxas dispararam e os preços caíram, afugentando o investidor que não estava preparado para tanta volatilidade na renda fixa.
Conforme levantamento da Quantum Finance feito para o Valor, em julho, os resgates somaram R$ 3,24 bilhões e o patrimônio dessa classe da indústria de fundos estava em R$ 155,7 bilhões. A amostra acompanha 458 fundos com o mínimo de 50% do patrimônio aplicado em crédito privado. Os resgates são muito concentrados nos fundos com liquidez inferior a um mês. O patrimônio dessas carteiras se reduziu em 47 % desde agosto, para R$ 129, 5 bilhões. Esses fundos foram os que concentraram os investimentos da pessoa física ano passado, que migraram para esses papéis em busca de mais retorno após a queda do CDI, mas sem abrir mão da liquidez. Houve críticas para o prazo curto de resgates, muitas vezes inferior a cinco dias, uma vez que a negociação de debêntures no mercado secundário ainda é reduzida e esses papéis são de prazo mais longos.
Os fundos com prazo de resgates acima de um mês perderam muito menos: desde agosto, o patrimônio desses portfólios caiu de R$ 31 bilhões para R$ 26, 2 bilhões (-15%). Em julho, os resgates nesses produtos ficaram em R$ 355,8 milhões. Em fevereiro, antes da pandemia, eles chegaram até a computar captação de R$ 245,7 milhões.
Alexandre Muller, sócio da JGP, afirma que uma questão atual nesse segmento é a falta de emissões primárias destinadas a mercado. “Com a falta de operações, se tivermos R$ 100 milhões em aplicações, vamos ser obrigados a fechar os fundos porque não tem ativo de mercado de capitais, embora haja algumas oportunidades em estratégias de nicho”, afirma Mulller.
Segundo a Anbima, neste ano não houve nenhuma oferta pública (instrução CVM 400) de debêntures. E as operações com esforços restritos de colocação (ICVM 476) ficaram com os bancos, que acabaram concentrando as operações das grandes empresas na crise e enquanto os fundos lidavam com os resgates. Os dados mostram que 85% dos títulos de dívida ficaram com os bancos coordenadores, percentual acima dos 65% observado nos anos de 2014 a 2016.
Até julho, as captações via debêntures somaram R$ 54,6 bilhões — queda de 50% na comparação com igual intervalo de 2019.
Muller afirma que esse volume de emissões primárias mais devagar está contribuindo também para o fechamento dos spreads e a recuperação dos preços. Além dos fundos dedicados, outros players como os multimercados e as tesourarias de bancos têm mostrado apetite por debêntures no mercado secundário. A crise também abriu oportunidades de comprar papéis de bons emissores a taxas muito atrativas.
O JGP Idex-CDI, índice criado pela gestora para acompanhar a performance do crédito privado, está com um retorno acumulado no ano até 12 de agosto de 2,34%. No acumulado do ano até julho, o Idex ficou positivo em 1,95%, em linha com o CDI, que estava em 1,96%.
O spread de carrego (quanto o ativo gera de rendimento diariamente até o seu vencimento) em julho caiu para CDI mais 2,94%, ante CDI mais 3,45% em junho. Muller destaca que, nos últimos três meses, os fundos de crédito privado têm mostrado forte recuperação e muitos estão próximos de zerar as perdas no ano, o que deve voltar a atrair investidores. “Uma coisa que limitou a captação nesse período foi justamente a performance, que estava ruim”, diz.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Ana Paula Ragazzi, Valor - de São Paulo, 13/08/2020

