Na contramão da economia em geral, a construção brasileira tem observado crescimento da produtividade desde a segunda metade do ano passado. No primeiro trimestre de 2023, a produtividade da construção, medida pelas horas efetivamente trabalhadas, subiu 2,1%, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, acima da produtividade agregada da economia, que avançou 1,3%, mas por causa do salto na agropecuária.

No terceiro e no quarto trimestre de 2022, enquanto a produtividade agregada caiu 3,3% e 0,9%, respectivamente, a da construção subiu 2,1% e 5,7%. Os dados são do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre).

Uma das explicações é um “efeito composição importante” e contrário ao observado na economia como um todo, aponta Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção no instituto.

Durante a pandemia, trabalhadores menos qualificados e, portanto, menos produtivos foram os que mais perderam seus empregos, fazendo com que a produtividade agregada desse um salto no segundo trimestre de 2020, efeito que foi se dissipando com a normalização sanitária.

Isso também foi observado na construção, mas, para o setor, a pandemia ainda deu gás à “reforma formiguinha”, isto é, pequenos reparos feitos pelas próprias famílias, com menor eficiência. Assim, a produtividade da construção chegou a diminuir 22% no segundo trimestre de 2021, mais do que a agregada, que caiu 14,4%.

 

Pouco a pouco, essa queda foi perdendo intensidade, e a produtividade na construção voltou ao terreno positivo no fim de 2022, enquanto a economia como um todo seguiu com perdas. Isso porque, conforme a “reforma formiguinha” se esgotou, diz Castelo, voltaram a pesar mais para a produtividade total da construção os segmentos formais, de edificações e obras de infraestrutura, por exemplo.

Em um trabalho publicado no blog do FGV Ibre, Castelo, Iuri Viana e Carlos André Vieira observam que a produtividade da produção familiar alcança apenas 20% da produtividade das empresas, de acordo com os dados das Contas Nacionais de 2020.

Nelson Rocha Augusto, presidente e economista-chefe do BRP, sugere ainda que, como os custos dos insumos da construção foram muito pressionados na pandemia, os segmentos formais se viram forçados a ter ganhos em técnicas produtivas, com mais processos fora do canteiro de obras. “O custo do material explodiu e eles já tinham feito muitos lançamentos. Tinha de ter uma melhoria de eficiência e, consequentemente, da produtividade, sob pena de entrar em margens negativas”, diz.

O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), calculado pela FGV, subiu 8,7% em 2020, 14% em 2021 e 9,4% em 2022. Até julho de 2023, acumula alta de 2,25% no ano e de 3,15% em 12 meses. “Agora, o custo dos insumos está caindo de forma importante, mas o ganho de produtividade permanece”, diz Rocha.

Castelo pondera que, estruturalmente, a construção ainda tem dificuldade de se modernizar. Sondagem especial do FGV Ibre junto às empresas de construção do país, feita em abril deste ano, mostra que apenas 34,6% delas usam sistemas pré-fabricados em suas obras. E, mesmo entre essas empresas, apenas 24,5% utilizavam em mais da metade de suas obras.

 
Houve ganhos importantes, mas ainda não tão impactantes”
— Paulo Aridan Mingione

Entre 1995 e 2022, a construção, juntamente com a indústria de transformação, contribuiu negativamente para a produtividade agregada da indústria por hora trabalhada, observam Castelo, Viana e Vieira. Os pesquisadores apontam ainda que, pelas Contas Nacionais de 2020, a produtividade das empresas da construção equivalia a 79% da produtividade das empresas industriais em geral.

“Sob uma perspectiva histórica, a construção aparece como patinho feio”, afirma Castelo.

Mesmo na produção formal - que abrange desde a construção de residências, escritórios, pontes e viadutos inteiros até partes de obras, em serviços especializados como preparação de terrenos, instalações elétricas e hidráulicas e acabamentos - há diferentes níveis de produtividade.

Pelos dados da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (Paic), do IBGE, a produtividade das empresas da construção diminuiu cerca de 0,37% ao ano entre 2007 e 2021, com quedas em todas as áreas, mas o pior resultado foi dos serviços especializados (-1,2% ao ano), destacam Castelo, Viana e Vieira. Na infraestrutura, a perda de produtividade foi de 0,72% ao ano. Apenas no segmento de edificações houve melhora, ao ritmo de 0,92% ao ano.

É de se esperar, segundo Castelo, que a produtividade da construção de edifícios ou obras de infraestrutura seja maior do que obras de acabamento, por exemplo, que representam apenas uma parte do ciclo produtivo e são muito mais intensivas em mão de obra. Mas, além disso, observa, esse segmento de serviços especializados prestados às construtoras concentra empresas muito pequenas, que tendem a ser menos produtivas.

Melhorar a produtividade desses prestadores de serviços passaria por um processo construtivo mais industrializado em si, diz Castelo. “Uma coisa é produzir paredes de alvenaria tradicional e outra é usar drywall, que vem pronto da indústria para a obra e a empresa só vai fazer a colocação.”

“A relação entre produtividade e industrialização no setor é clara, mas há dificuldade de dar um salto qualificado maior. Precisamos ter uma mudança estrutural. O avanço da produtividade da construção no curto prazo foi algo mais conjuntural, que pode sofrer revés”, afirma a pesquisadora.

Além dos juros elevados e da qualificação geral da mão de obra, questões tributárias estão entre os principais entraves para a construção ganhar produtividade, segundo os especialistas.

Sobre o que é produzido dentro do canteiro de obras, incide, por exemplo, o imposto sobre serviços (ISS), de 3% a 5%, enquanto uma estrutura que venha de fábrica precisa pagar 17% a 18% de ICMS, explica Castelo. “A reforma tributária proposta vai acabar com ICMS e ISS, instituindo o IVA. A princípio, geraria uma isonomia tributária em relação ao processo. Mas o setor ainda se preocupa que o IVA possa representar um aumento para os produtos da construção, que, hoje, têm uma tributação diferenciada. Precisamos ver qual será o efeito líquido final”, diz.

No caso da construção residencial, existe ainda uma estrutura de financiamento que “joga contra” investimentos em processos que gerem mais produtividade e, consequentemente, reduzam o tempo de construção, observa Castelo.

“Para os prédios comerciais, o tempo de construção é muito importante; para os residenciais acontece o inverso. Parte importante do valor do imóvel é financiado no período da construção pelas construtoras, porque os bancos aceitam só 65%, 70% do valor do imóvel. Se o tempo entre a compra e a entrega do imóvel for muito reduzido, vai encavalar o pagamento dessas parcelas para a incorporadora com o financiamento imobiliário”, afirma Castelo.

Falta também uma padronização melhor de peças e insumos que facilite o ganho de escala para as construtoras e até para os consumidores, diz Paulo Aridan Mingione, coordenador do Grupo de Trabalho de Produtividade do Comitê de Tecnologia e Qualidade do Sindicato da Construção de São Paulo (SindusCon-SP). “Ainda temos um percentual grande de itens customizados em cada obra. Isso dificulta no projeto e na produção industrial”, afirma.

Apesar de o percentual de produtos e sistemas industrializados na construção brasileira ainda ser baixo, Mingione afirma que ele é maior do que há dez anos. Ele diz que as empresas do setor tiveram ganhos com uso de softwares para controle de gestão dos projetos e investimentos em tecnologia e planejamento logístico, mas que esse é um processo cujos resultados não aparecem “do dia para a noite”. “Houve ganhos importantes, mas ainda não tão impactantes, poderia ter muito mais.”

As demandas da sociedade em relação à questão ambiental, diz Mingione, podem ainda ajudar a empurrar o setor na direção de processos mais eficientes. “Isso também vai impulsionar todo mundo a caminhar no sentido de procurar sistemas que consumam menos recursos e gerem menos entulho, menos lixo.”


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anaïs Fernandes — De São Paulo, 07/08/2023