Uma combinação de fatores e indicadores recentes da economia brasileira tem consolidado na equipe econômica a convicção de que o nível de atividade já deve mostrar alguma recuperação no último trimestre deste ano e acelerar em 2017, com a projeção de 1,2% de expansão no próximo ano sendo uma espécie de piso para o crescimento. Esse cenário considera a aprovação da PEC dos gastos neste ano. O principal risco para confirmação deste cenário, segundo uma fonte da quipe econômica, vem do exterior, com as discussões de alta de juros nos Estados Unidos, desaceleração pior do que a esperada na China e os problemas na Europa, acentuados pelo Brexit. Mesmo assim, a visão é que as forças internas daqui para a frente devem prevalecer sobre eventuais desdobramentos negativos do exterior.
Um interlocutor da área econômica considera que o clima mais otimista que tem ganho espaço na economia não ocorre "no vazio", apesar de indicadores ainda ruins do lado real. Embora haja reconhecimento sobre a situação ainda "extremamente difícil" do país, já haveria elementos relevantes de confirmação de uma tendência de melhora. O primeiro desses fatores seria a trajetória dos ativos no mercado financeiro, que costuma antecipar eventos positivos e negativos. Desde março tem havido melhora substancial na olsa, nos juros, no câmbio e indicadores financeiros externos, como o CDS (seguro contra calote), movimento que se acentuou recentemente.
"Para quem toma dinheiro, o custo efetivo caiu de forma relevante no último bimestre", disse a fonte, lembrando que o CDS chegou a um nível tão elevado quanto há 15 anos, o que se traduzia num mercado internacional virtualmente fechado para captação de empresas brasileiras. Agora, as companhias já conseguem tomar recursos lá fora e, desde que o governo interino assumiu, já foram captados cerca de US$ 15 bilhões. A reabertura do crédito externo, na visão dessa fonte, naturalmente ajuda a destravar o mercado de crédito doméstico, que ainda está enfraquecido.
"Quando o CDS cai, o custo de financiamento externo dos bancos diminui e pode viabilizar algum repasse aqui dentro em alguma medida", disse, lembrando que isso favorece um movimento de melhora no perfil de crédito das empresas, por meio de renegociações bancárias, que já estariam se preparando para a retomada da economia. Essa visão sobre as renegociações, contudo, não é consensual no governo. Um outro interlocutor da área econômica afirma que há um movimento maior de renegociações de dívidas no setor bancário, mas entende que isso é uma evidência negativa sobre a condição das empresas e não sustentaria a análise de que seria uma espécie de preparação para a retomada, cujos sinais ainda seriam incipientes e ainda cercados de incertezas.
Além da melhora no mercado financeiro e do crédito externo para as companhias nacionais, a equipe econômica tem destacado o movimento de recuperação da confiança de empresas e famílias, que deve se traduzir em mais consumo e investimentos à frente.
Nesse sentido, já se nota uma melhora mais clara em indicadores relacionados a investimentos, como produção de bens de capital e alta das importações desses produtos nos últimos meses. "É razoável imaginar que investimentos terão resposta mais forte", disse a fonte, considerando que a tendência é que o novo ciclo de crescimento tenha um crescimento mais forte dos investimentos do que do consumo, ainda que os dois movimentos de certa forma se alimentem. "O investimento tem um comportamento muito volátil.
Quando economia vai mal, ele é péssimo. Quando economia vai bem, ele vai muito bem", acrescentou o interlocutor. O setor externo também terá contribuição importante, o que, na verdade, já vem ocorrendo. Nos últimos 12 meses, a quantidade de bens exportados
cresceu quase 13%, o que ajuda a atividade. Além disso, há um processo de recuperação dos preços das commodities, depois de terem tingido os níveis mais baixos no fim do ano passado e início deste ano, que leva a crer em um desempenho mais favorável do setor real da economia brasileira nos trimestres à frente.
A recente valorização cambial, provocada essencialmente por melhora no humor do mercado financeiro e recuperação das commodities, também ajuda a reforçar um cenário favorável, na visão dessa fonte. Isso porque o movimento gera melhora nos balanços de empresas e famílias com dívida em dólares. Apesar da visão relativamente benigna para a economia à frente, o governo ressalta que a recuperação agora será em ritmo menos intenso do que os verificados em 2010 e 2004, dois anos após períodos de crise, quando o crescimento econômico se acelerou rapidamente, com taxas trimestrais chegando a 2%.
Fonte: Valor - Brasil, por Fabio Graner, 28/07/2016

