Assim como observado na indústria, houve importante aumento da ociosidade nos setores de serviços e construção civil ao longo da  rise, mas os últimos números mostram estabilização da tendência de recuo, com ligeira alta da utilização dos fatores produtivos nos serviços. A partir das sondagens de julho, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre­FGV) vai divulgar dados mensais do uso da capacidade instalada para esses dois importantes setores da economia, além da indústria.

Em abril de 2013, quando os índices começaram a ser calculados, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) era de 88,4% nos serviços, pico da série. Até maio deste ano, recuou 6,2 pontos percentuais, para 82,2% ­ nível mais baixo da pesquisa. De maio para junho, o Nuci de serviços interrompeu uma sequência de nove retrações mensais e subiu para 82,7%, voltando ao patamar de fevereiro.

Devido à heterogeneidade dos serviços, que representam mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e à dificuldade de medir a "produção" do segmento, que é intangível, o Nuci estimado para o setor é uma aproximação, explica Aloisio Campelo, superintendente­adjunto para ciclos econômicos do Ibre­FGV. Ponderando que a nova série é baseada em um indicador também recente, elaborado pela Comunidade Europeia desde julho de 2011, e que ainda está próxima de seu mínimo histórico, Campelo avalia que a redução da capacidade ociosa dos serviços no último mês pode ser um sinal positivo para o setor.

"Talvez seja um ponto de inflexão. Temos que observar o dado de julho para confirmar", diz. Na construção civil, setor econômico mais volátil e em  situação pior no momento, os indícios são ainda de estabilização das quedas, afirma Campelo.

De maio para junho, o Nuci da construção ficou praticamente estável, ao recuar 0,1 ponto, para 63,6%, nível mais baixo do que o da indústria, que ficou em 73,9% no período. A construção já chegou a usar 82,9% de sua capacidade instalada, em setembro de 2013. O método de cálculo do Nuci do maior setor da economia brasileira é mais complexo do que o empregado para estimar o nível de uso da capacidade instalada na indústria e, mais recentemente, na construção. Para esses dois ramos de atividade, a FGV pergunta de forma direta aos empresários qual o percentual de utilização da capacidade produtiva da empresa no momento.

Nas fábricas, onde essa medição é mais padronizada, as firmas costumam comparar a produção corrente a uma estimativa do potencial de produção, considerando uma combinação entre os fatores mão de obra e capital disponível. Para o Nuci da construção, a FGV decidiu calcular dois indicadores separados, um para o uso do pessoal ocupado e outro para o de máquinas e equipamentos, para depois agregá­los em um só índice no qual a mão de obra tem peso bem mais relevante (83,6%).

Já para os serviços, a enquete é mais subjetiva e feita em duas etapas, com base em metodologia adotada pelos 24 países da Comunidade Europeia que, na avaliação do Ibre­FGV, tem mostrado bons resultados e é a melhor opção para o Brasil. Primeiro, a empresa é questionada se poderia elevar o volume de serviços prestados com os recursos atualmente disponíveis em caso de expansão da demanda. Se a resposta for "não", considera­se que a companhia está usando 100% de sua capacidade.

Se a resposta for positiva, a FGV pergunta à empresa qual o acréscimo possível na prestação de serviços com a capacidade produtiva atual, em termos percentuais. A partir daí, é estimado o Nuci, que é a razão entre o volume de serviços ofertados no momento e a capacidade total de oferta. Se uma firma de logística afirma, por exemplo, que transporta 100 toneladas de carga, mas seria possível elevar esse volume em 30%, seu Nuci seria de 76,9% (razão entre 100 e 130).

Segundo levantamento feito pela FGV em dezembro de 2012 com 2.445 empresas de serviços, 76,6% dessas firmas informaram possuir algum mecanismo para mensurar o nível de uso da capacidade produtiva. Na época, o mesmo percentual avaliou a capacidade instalada como suficiente para atender à demanda. Para mais de metade (53,4%) dessas empresas, o fator produtividade e desempenho da mão de obra é levado em conta para medir o Nuci. Na construção civil, a mão de obra já contratada é o item mais usado para fazer essa mensuração, com 78,3% das respostas de 694 companhias. Os dois índices têm bastante aderência ao comportamento das contratações em cada segmento. Em uma escala de 0 a 1, a correlação linear entre o Nuci da mão de obra na construção e o estoque de ocupados com carteira assinada no setor é de 0,98. Na comparação entre o Nuci de serviços e o total de ocupados no setor, o índice é de 0,85.

Números acima de 0,7 indicam

correlação forte entre as variáveis. O Nuci também é considerado importante fator de determinação da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Quanto maior a capacidade ociosa na economia, menor a necessidade de investimentos produtivos. De acordo com a FGV, a correlação entre o Nuci total da construção e a produção física de bens de capital medida pelo IBGE é de 0,98


Fonte: Valor - Brasil, por Arícia Martins, 26/07/2016