A queda da inflação corrente não está levando a uma redução proporcional nas expectativas de inflação do mercado para o ano. Pior: os analistas econômicos estão aumentando as suas projeções de inflação para o último quadrimestre de 2013, provavelmente devido à alta do dólar.

O boletim Focus do Banco Central, divulgado anteontem, registra uma queda expressiva nas projeções de inflação para julho e uma redução moderada nas projeções para agosto. As estimativas para o período de setembro a dezembro, porém, subiram.

Esse conjunto de informações assumiu caráter estratégico desde que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central indicou, em fins de maio, que subia os juros para combater um quadro de inflação alta, disseminada e resistente, agravado basicamente pelo desancoramento das expectativas de inflação.

A inflação esperada pelo mercado para julho recuou de 0,2% para 0,05%, o que representa uma queda de 0,15 ponto percentual. A inflação projetada para o ano de 2013, porém, caiu bem menos: 0,05 ponto percentual, de 5,8% para 5,75%.

Se a inflação anual é a soma das inflações mensais, era de se esperar que a queda nas projeções para 2013 fosse de 0,15 ponto percentual, tudo mais mantido constante. E, se o BC já estivesse ganhando a batalha das expectativas, a queda da inflação no curto prazo iria levar a uma melhora das perspectivas de médio e longo prazos.

A revisão para baixo da projeções para julho foi causada sobretudo pela surpresa positiva no IPCA-15 do mês. Até dois dias antes de sair o número, o mercado esperava um IPCA-15 de 0,22%. O dado final divulgado pelo IBGE foi 0,07%.

Os analistas dos chamados Top 5 de curto prazo, grupo de cinco departamentos econômicos que mais acertam suas projeções, fizeram uma revisão ainda mais expressiva na inflação projetada para julho. Ela caiu de 0,23% para 0,01% em uma semana. E estão mais otimistas sobre a inflação de agosto, que, nas suas projeções, caiu de 0,29% para 0,26%.

Isso, porém, não levou a uma revisão nas projeções de inflação para 2013. Pelo contrário: elas subiram. Passaram de 5,73% para 5,77% em uma semana.

Em junho, ocorreu algo semelhante. A surpresa inflacionária de um IPCA mais baixo, em 0,26%, menor do que os 0,36% esperados pelo próprio BC, não foi integralmente incorporada nas expectativas do mercado para o IPCA no ano.

Uma das explicações para a inflação projetada para o ano de 2013 não ceder é que, com alta do dólar, os analistas estão ficando um pouco mais pessimistas sobre a evolução da inflação a partir de setembro.

Sazonalmente, a inflação do fim do ano é mais alta. Mas o mercado está jogando ainda mais para cima as suas projeções. A inflação de setembro, por exemplo, foi revista pelo mercado de 0,42% para 0,5% em apenas uma semana; a de outubro, de 0,48% para 0,5%; a de novembro, de 0,55% para 0,56%; e a de dezembro, de 0,6% para 0,61%.

A desvalorização cambial começa a aparecer nos índices de preços três meses depois de o dólar subir e costuma ter impacto mais forte até seis meses depois. Ou seja, a alta do dólar desde fins de maio irá chegar à taxa de inflação em setembro.

De certa forma, isso já está nos cálculos do BC. A ata da última reunião do Copom, divulgada na semana passada, diz que a alta do dólar representa uma mudança de preços relativos. A preocupação é evitar, com juros mais altos, os chamados efeitos secundários da alta do dólar. Ou seja, impedir que ocorram reajustes de preços em setores da economia que não têm relação direta com a alta do dólar.

A projeção de inflação para 2014 teve uma ligeira queda, de 5,9% para 5,87%. É um bom começo, mas a batalha das expectativas não estará ganha até as projeções de inflação do mercado caírem para patamares abaixo de 5% que o Banco Central estabeleceu como sua meta informal para o próximo ano.


Fonte: Valor, 24/07/2013