s ações de siderúrgicas fecharam em queda o pregão desta quarta-feira na B3 após comentários do ministro da Economia, Paulo Guedes, na Live do Valor, sobre reduzir taxas de importação.
Guedes diz que gostaria de baixar tarifas de importação, mas destaca amarras no Mercosul
CSN ON caiu 3,98% e Gerdau PN perdeu 1,3%, enquanto Usiminas PNA cedeu 3,5% e Metalúrgica Gerdau teve queda de 1,6%.
Os comentários do ministro sobre uma eventual redução da tarifa de importação no setor de aço intrigaram os participantes do mercado, que tentam entender quais fatores concretos já teriam sido negociados.
De acordo com o ministro, que foi o convidado nesta quarta-feira (14) da Live do Valor, representantes do setor de aço “fizeram um acordo informal conosco [com o governo] para não subir preços até o fim do ano”. Por outro lado, disse o ministro, “eles aceitam uma queda de 10% na tarifa de importação. Nós já tínhamos avisado que faríamos isso”, disse.
Segundo Guedes, a importação desse insumo aumentou fortemente, enquanto as exportações caíram, o que já melhora o abastecimento interno.
Embora a avaliação ainda seja bastante preliminar e não haja tanta clareza sobre as falas de Guedes, o BTG Pactual ouviu de participantes do setor de aço que a potencial redução na tarifa de importação seria de 1,2 ponto percentual, e não 10 pontos percentuais como foi indicado.
Em seus comentários, Guedes explicou que as medidas teriam sido tomadas em um contexto de demanda aquecida por aço diante do ”boom” do setor de construção enquanto a oferta estava restrita, já que a atividade das siderúrgicas foi contida — com fornos desligados — durante a pandemia. De acordo com Guedes, as importações têm aumentando e as exportação diminuíram nessa “disputa”. Guedes disse que está em contato tanto com representantes da construção civil quanto da cadeia de aço.
Operadores de renda variável comentam que as declarações do ministro “derrubaram" as ações de siderúrgicas, com os investidores temendo uma maior competição interna com as fabricantes de aço vindo da Ásia. “Estão importando aço da Turquia 5% mais barato que o produzido por aqui. Isso sem os 10% do Guedes”, comenta um profissional de uma corretora nacional.
Nesse sentido, o receio é de que a maior concorrência no mercado doméstico irá baratear o preço da cesta de produtos do aço praticado no Brasil, em um momento em que as commodities metálicas seguem cotadas em níveis históricos de alta no exterior, ainda que longe das máximas. Outro agravante seria o fato de as siderúrgicas nacionais não terem um perfil exportador. “Estão forçando a exportação do nosso aço, mas nenhuma empresa é um grande player global”, emenda outro operador.
Trata-se de um grande revés para o setor, uma vez que a demanda por commodities metálicas e produtos do aço tende a seguir elevada, considerando-se as ações da China para controlar a emissão de poluentes. Segundo a economista do Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco (Depec), Fabiana D’Atri, os esforços do país asiático em se tornar uma “economia verde” acabará tornando a China em um importador de aço. “Há quem especule que, no futuro próximo, isso será uma forma de ‘exportar poluição’”, pondera.
Porém, o analista da Mirae Asset, Pedro Galdi, lembra que desde o ano passado as siderúrgicas brasileiras aumentaram muito o preço do aço, mas ainda assim em níveis inferiores ao praticado no mercado internacional. “O preço do aço na China disparou mais de 30%, 40%, enquanto a diferença aqui estava em 20% [ante o praticado no exterior]”, observa.
Ele lembra que, historicamente, o nível considerado “aceitável” pelas siderúrgicas é de 10% na alíquota de importação do produto, de modo a permitir uma competição. Por isso, Galdi avalia que o impacto da medida sugerida por Guedes para as siderúrgicas brasileiras “é nulo”. “Se o mercado aqui ficar mais competitivo, dá desconto”, emenda.
O analista da Mirae acrescenta ainda que o risco de importar aço é grande. “Além de pagar mais caro, tem a questão da corrosão durante o transporte marítimo, o próprio custo do fretamento e a qualidade do aço, com o risco de chegar um produto diferente do que foi pedido”, enumera.
Para Galdi, a medida anunciada por Guedes mira mais a inflação. “É para impedir uma subida no preço [do aço] de modo absurdo, com reflexos em toda a cadeia. Ao gerar concorrência, acaba tirando a força sobre índices de preços no atacado e aliviando a inflação”, conclui.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata e Olívia Bulla, Valor — São Paulo, 14/07/2021

