Num dia quente na CPI da Covid e de ansiedade com os dados do mercado de trabalho americano, a bolsa brasileira continua repercutindo a reforma tributária. Segundo gestores, o ponto que mais preocupa neste momento e que explica, em grande medida, a perda de tração das ações é a proposta de fim da dedutibilidade dos Juros sobre Capital Próprio (JCP). Isso porque, até aqui, não surgiu nenhuma informação de Brasília sugerindo que esse ponto da proposta poderá ser reavaliado. “Com a proposta de reforma a bolsa perdeu momentum”, define um profissional.
Desde que a reforma foi anunciada, o mercado vem discutindo o impacto das medidas propostas e, na sequência, a probabilidade de aprovação das mesmas. E, ontem, já crescia a visão de que a reforma seria “aguada”, ou seja, algumas das medidas seriam aliviadas, dada a reação negativa das empresas afetadas. Mas, segundo os gestores, não apareceu até aqui nenhuma indicação de que o mesmo vai acontecer com o JCP - uma das medidas que mais castiga as companhias negociadas em bolsa, principalmente pesos-pesados como os bancos e Ambev, além de empresas de telecomunicações.. “Hoje, o que o mercado está expressando é o receio de que uma parte da reforma seja, sim, aprovada, incluindo o fim do JCP”, explica uma das fontes ouvidas pelo Valor. “Ninguém apareceu até agora dizendo que é injusto. Está com toda a cara de que vai rolar.”
Na prática, o fim da dedutibilidade de JCP tende a elevar a taxa efetiva de impostos das empresas que usavam essa ferramenta para distribuir os rendimentos aos acionistas e, com isso, também conseguiam benefício fiscal em seus balanços. Logo, os investidores calculam o impacto nos lucros das companhias e descontam esse efeito do preço das ações, além de considerar que a distribuição via dividendos também será mais custoso.
Outro aspecto que eleva a ansiedade do mercado é que, diferentemente de outras reformas, o debate das medidas agora acontece nos bastidores do Congresso, o que reduz a visibilidade do processo. Em outras reformas, feitas por meio de emenda constitucional, a discussão ocorria dentro de uma comissão especial, o que tornava mais fácil acompanhar a evolução do tema. “Existe ceticismo sobre a reforma andar no Senado. Mas o Arthur Lira [presidente do Congresso] está falando que quer votar antes do recesso”, afirma um profissional de mercado. “E Lira vai levar direto a plenário, e não se sabe com qual teor. Isso está pesando na bolsa.”
Os mercados expressam um dia tenso também nos negócios de câmbio e juros. Mas, para profissionais, esse movimento está muito mais alinhado ao exterior, onde os investidores ajustam o apetite por risco à esperada pelos dados do payroll de amanhã.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucinda Pinto e Lucas Hirata, Valor — São Paulo, 01/07/2021

