Após a greve dos caminhoneiros, a forte piora nas condições do mercado financeiro e dois dados trimestrais decepcionantes sobre o ritmo da atividade econômica no Brasil, o Banco Central (BC) anunciou a redução de 2,6% para 1,6% na estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro neste ano. Com o movimento, a previsão da autoridade monetária ficou bem alinhada com o mais recente número do mercado, que apontava alta de 1,55% no PIB.

A nova projeção do BC reforça o viés de baixa que já estava sinalizado para a estimativa oficial da equipe econômica, constante do relatório bimestral de receitas e despesas, de expansão de 2,5% para o PIB deste ano. O Ministério da Fazenda já havia apontado impacto direto negativo de 0,2 ponto porcentual no PIB gerado pela greve dos caminhoneiros, mas ainda contabiliza possíveis impactos indiretos. Além disso, a deterioração nos mercados reforçava o cenário de um número menor, com risco não desprezível de ficar abaixo de 2%, o que será conhecido em julho.

Ao revisar sua previsão, o BC melhorou sua expectativa para a produção agropecuária, de queda de 0,3% para expansão de 1,9%, após o desempenho acima do esperado no primeiro trimestre e reestimativas de produção pelo IBGE. No caso da indústria, a estimativa saiu de 3,1% para 1,6% de expansão. E, para os serviços, de 2,4% para 1,3%.

O BC alterou pouco sua previsão de alta dos investimentos, passando de 4,1% para 4%. O consumo do governo passou para recuo de 0,2%, ante alta de 0,5% na estimativa de março. E o consumo das famílias caiu de 3% para 2,1%.

O diretor de Política Econômica do BC, Carlos Viana, disse na apresentação do Relatório de Inflação que a economia brasileira segue operando com alto nível de ociosidade, mas continua em recuperação gradual. Para ele, o ritmo de recuperação dos componentes privados da demanda agregada (consumo e investimentos) segue o padrão de outros ciclos de retomada da atividade econômica, à exceção do verificado em 2009, quando a recuperação foi mais rápida.

Ele ponderou que a greve dos caminhoneiros teve efeitos na economia, como queda em alguns indicadores de atividade bem como a alta da inflação em junho, ainda que ele também tenha destacado que os preços foram afetados também pelo "ajuste de preços relativos", ou seja, do câmbio. No caso da greve, Viana ressaltou que houve impacto mais rápido nos preços de alimentos in natura (não processados). "O efeito da paralisação dos caminhoneiros apareceu rapidamente em preços como alimentos in natura, mas houve uma estabilização e depois um início de reversão. Nossa visão é que os efeitos serão temporários", disse.

O relatório foi explícito em dizer que a greve foi um dos elementos a derrubar a previsão de crescimento. Esses efeitos, contudo, ainda não estão completamente delineados, na visão do BC. "Enquanto não forem divulgadas as trajetórias de indicadores setoriais mais abrangentes, referentes a maio e meses subsequentes, não será possível dimensionar, de forma precisa, o impacto da paralisação do setor de transporte de cargas sobre a atividade econômica. Estatísticas divulgadas mais tempestivamente, entretanto, sinalizam influência expressiva do evento sobre a produção e o varejo", disse.

Na visão apresentada no relatório, a paralisação no setor de transporte de cargas tende a afetar, também, os índices de confiança de empresas e famílias. "Esses indicadores já vinham sinalizando, na margem, arrefecimento do ritmo de recuperação econômica, refletindo tanto o comportamento dos componentes associados à percepção da situação atual quanto dos relacionados às expectativas para os próximos meses".

No caso mais específico da inflação, o BC enxerga que os impactos da paralisação foram concentrados sobre os preços dos combustíveis e dos alimentos. "O evento deverá afetar, ainda, a inflação de junho - como já vem sendo assinalado por resultados parciais dos indicadores de preços - e de julho, em menor magnitude. Ressalte-se que tais efeitos altistas devem ser temporários, constituindo ajustes de preços relativos aos referidos choques", avalia.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Fabio Graner, Eduardo Campos e Alex Ribeiro , 29/06/2018