Uma hora e meia depois do início de protestos que mobilizaram ontem mais de mil pessoas em três bairros da periferia de São Paulo, o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), acenou aos movimentos sociais e disse que iria recebê-los na sede do governo paulista. Alckmin reuniu-se com líderes do Movimento dos Sem Teto e do movimento Periferia Ativa, que articularam as manifestações, e prometeu reajustar o auxílio-moradia de R$ 300 para R$ 400 para beneficiar 1,7 mil famílias.
A tentativa de aproximação de Alckmin em relação aos movimentos sociais destoa da atitude do tucano de onze dias atrás, quando classificou os protestos que mobilizaram milhares de pessoas em São Paulo como "movimento político" e "ato de vandalismo". Na mesma ocasião, o governador elogiou a Polícia Militar do Estado como "a melhor do país", apesar das denúncias de abuso dos policiais na repressão dos manifestantes.
Ontem, o governador buscou evitar que os protestos fossem parar na porta do Palácio dos Bandeirantes. Às 8h30, os manifestantes que estavam nas ruas de Capão Redondo, na zona sul, comemoravam no microfone o telefonema que um dos líderes do grupo tinha recebido. "O governador vai nos receber!", gritava. "O grito da periferia foi ouvido!". Apesar do frio e da chuva, as manifestações concentraram dezenas de pessoas no Campo Limpo, na zona sul, e Guaianazes, na zona leste, além do Capão Redondo. Pouco antes das 11h, lideranças dos movimentos foram recebidas pelo governador.
Enquanto a reunião com o governador não havia começado, os manifestantes protestaram. Na pauta, estavam críticas à atuação da Polícia Militar, ao preço do aluguel, aos investimentos públicos nas obras da Copa e à má qualidade da saúde e educação. Nos cartazes, estavam frases como "Que polícia é essa? Ela protege? Ou nos mata" e pedidos como "Não ao aumento do custo de vida". Nos discursos e nas faixas, ganhou destaque a crítica aos investimentos públicos em obras da Copa. "Vamos dar um chute no traseiro da Fifa" e "Enquanto a bola rola, a Dilma só enrola. Da Copa eu abro mão. Quero saúde, educação e segurança", mostravam as faixas. Integrante do MTST, Vanessa de Sousa criticava: "Temos grandes estádios para receber a Copa, mas não temos um hospital decente, nem médicos".
O Movimento Passe Livre (MPL), que apoiou a manifestação, teve presença discreta. Nas manifestações da zona sul, apenas uma bandeira do MPL e o integrante do grupo Caio Martins, de 19 anos. O estudante disse que a participação do MPL em protestos será pontual depois da revogação do aumento da tarifa, conquistada na semana passada. "Vamos fazer manifestações quando for necessário. Existem outras formas de protestar e de se articular além das ruas".
O protesto estava previsto para seguir até a sede do governo, mas se dispersou depois do encontro com Alckmin.
Depois dessa reunião, o governador anunciou também a redução média de R$ 0,15 das passagens intermunicipais de ônibus na região metropolitana da capital e na baixada Santista. Os novos valores das tarifas devem valer a partir de primeiro de julho. O governador disse que a redução do preço da passagem da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU) vai variar entre R$ 0,10 e R$ 0,20. Essa empresa opera em 48 cidades de São Paulo e em 40 delas há tarifas diferentes.
Em sinalização direta aos grupos que pedem transporte com mais qualidade, Alckmin disse que pediu R$ 3,58 bilhões ao governo federal para três obras de mobilidade urbana em São Paulo. Em encontro com a presidente Dilma Rousseff, na segunda-feira, o governador apresentou projetos para a expansão do metrô, melhorias na CPTM e ampliação de corredor intermunicipal de ônibus para serem incluídos no Plano Nacional de Mobilidade Urbana.
Ontem, no Rio, cerca de 1,5 mil pessoas participaram de plenária para decidir trajeto e horário do próximo protesto convocado pelo Fórum de Lutas Contra o Aumento das Passagens. Devem acontecer atos amanhã e o no domingo, data da final da Copa das Confederações.
Fonte: Valor, 26/06/2013

