Há espaço para queda mais forte da Selic, que pode romper a taxa de 8,5% projetada atualmente na pesquisa Focus para este ano. Mas, sobre o ritmo desse alívio, as dúvidas continuam. Essa foi a leitura do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) feita por analistas do mercado financeiro, visão expressa também nos juros futuros, que mantêm apostas divididas entre corte de 0,75 ponto percentual e de 1 ponto no próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), marcado para julho.

A partir do documento, divulgado na manhã de ontem, o mercado consolidou a visão de que a atual crise política não eliminou as condições para que o juro teste a casa dos 8% ­ como se chegou a temer logo após a escalada das turbulências em maio. A maioria dos analistas ouvidos pelo Valor enxerga o nível de 8,5% como "teto" para a Selic no fim deste ano, e há casas trabalhando com taxa na linha dos 7% para o fim do ciclo. É o caso do BNP  Paribas, que projeta Selic de 8% no fim deste ano e de 7% já no começo do ano que vem.

Mais do que o tom adotado pelo BC no documento, analistas viram nas projeções para a inflação nos próximos anos essa indicação. No cenário que considera as estimativas da Focus, a previsão para o IPCA é de 4,5% em 2018, que cede a 4,3% no período de 12 meses encerrado no segundo trimestre de 2019. Os números levam em conta Selic de 8,5% e taxa de câmbio a R$ 3,40. "Essa é a novidade, porque mostra a continuidade da desinflação depois de 2018, o que dá conforto para o cenário de Selic a 8,5%", diz a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, para quem as projeções do BC podem estar, inclusive, "superestimadas". Esse quadro mostra que o BC está "confortável" para reduzir a Selic a 8,5% e também com um corte da meta de inflação para 2019, a 4,25%.

O economista-­chefe da Mauá Capital, Alexandre de Ázara, também vê nas projeções indicação de que a Selic pode cair abaixo de 8,5% e que, provavelmente, não será necessária nova elevação da taxa ao longo do próximo ano.

"O BC fez boas mudanças no seu modelo e mostrou projeções compatíveis com uma queda do juro para baixo dos 8,5%", diz o economista, que espera Selic de 8,25% para este ano, ao ritmo de duas quedas de 0,75 ponto e uma última de 0,5 ponto. Os cortes devem ser mais brandos por causa da piora do ambiente político, que pode inviabilizar o avanço das reformas e impedir que o juro estrutural do país caia como se esperava. As surpresas positivas da inflação, diz ele, vêm dos preços de alimentos, que não devem ser argumento para guiar a política monetária.

As perspectivas favoráveis para o IPCA levaram o Banco Safra a reduzir sua estimativa para a Selic ao fim deste ano de 8% para 7,5% ­ a mais baixa dentre as instituições consultadas. O economista­-chefe do banco, Carlos Kawall, espera que esse nível seja alcançado num ritmo mais lento do que o adotado até aqui: três cortes de 0,75 ponto e um final de 0,50 ponto. Mas o economista reconhece probabilidade considerável de o BC voltar a cortar a taxa em 1 ponto em julho. "Vemos 40% de chance de corte de 1 ponto. [...] O BC está incomodado com a crise política, mas não fechou a porta para uma redução ainda de 1 ponto", diz o ex-­secretário do Tesouro Nacional.

O Citi Brasil considera que o Relatório Trimestral de Inflação tornou sua estimativa de corte de 1 ponto da Selic no próximo mês "mais confortável". O BNP Paribas, cujo cenário-­base contempla corte de 0,75 ponto, não descarta redução mais intensa, para 1 ponto. E o BTG Pactual ­ que também trabalha com corte de 0,75 ponto ­ admite "chance considerável" de redução de 1 ponto, diferentemente do cenário traçado a partir do comunicado da última decisão de política monetária do Copom.

Analistas são unânimes em afirmar que o RTI não fecha questão sobre o próximo passo do Copom. O documento, dizem, acompanhou a recente mudança de tom da comunicação do BC em relação ao adotado na ata do Copom e, principalmente, no comunicado da decisão de política monetária, em meio à piora das condições políticas. Na ocasião, o BC cortou o juro em 1 ponto percentual, mas ponderou que uma redução "moderada" do ritmo de flexibilização monetária em relação ao promovido à época deveria se mostrar adequada na próxima reunião, a de julho. Com essa sinalização, o mercado corrigiu as apostas e passou a considerar declínio de 0,75 ponto percentual da Selic no Copom marcado para o próximo mês.

No RTI, o BC repetiu a frase, mas conjugando o verbo no pretérito. E reiterou que a definição do ritmo dependerá da evolução da inflação e da  atividade ­ cujas projeções de mercado retomaram a trajetória de queda ­ e também da evolução do processo de reformas. Ou seja, um novo corte de 1 ponto fato no páreo, embora um ritmo mais brando, de 0,75 ponto, ainda seja o cenário consensual do mercado.

O economista-­chefe da Garde Asset Management, Daniel Weeks, diz que esperava que o BC fosse mais enfático na indicação de corte de 1 ponto percentual da Selic na próxima reunião. No entanto, o documento mostrou uma postura "excessivamente" cautelosa nas projeções de inflação, dando pesos equivalentes tanto para uma redução de 1 ponto quanto para uma diminuição do passo, para queda de 0,75 ponto. "Com o tempo, a realidade pode se impor, e o BC deve ir para 1 ponto", afirma, lembrando que a decisão do Copom ocorre daqui um mês, em 26 de julho.

Solange, da ARX, também acredita que a evolução da inflação pode abrir espaço para uma nova dose de 1 ponto de corte da Selic em julho. "A inflação vem surpreendendo para baixo, e será importante observar as revisões das projeções para o IPCA em julho, que devem ocorrer após a divulgação do IPCA de junho", diz.

Já o economista do Banco Votorantim Roberto Padovani é mais cauteloso. Ele diz que o aumento das incertezas sobre o avanço das reformas gera dúvidas sobre a rapidez de queda do juro estrutural. "Se o juro estrutural é mais alto, cortes mais agressivos da Selic neste ano podem ter estímulo monetário excessivo em relação aos riscos para 2018", afirma. Embora não descarte revisões para baixo, Padovani projeta taxa terminal para a taxa Selic de 9%, que deve ser atingida em setembro. Por outro lado, o economista estima que a taxa volte a subir em 2018 e termine o ano em 10%.


Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata, José de Castro e Lucinda Pinto, 23/06/2017