A Brookfield ainda tem muito interesse no Brasil, apesar do acirramento da crise política em decorrência das denúncias envolvendo o nome do  presidente da República, Michel Temer. "A crise é de curto prazo, mas nossos investimentos são de médio e longo prazo", afirmou, ontem, o presidente da Brookfield Properties Brasil, Roberto Perroni, no TRX Day, evento do setor imobiliário, O que mudou, após a piora da crise, de acordo com Perroni, é que tem sido necessário dar mais satisfação sobre a situação do país para investidores de alguns fundos.

Segundo o executivo, após o segmento de escritórios comerciais ter vivido seu pior ano, em 2016, houve melhora no primeiro trimestre. Perroni conta que, com a crise política mais acentuada, a partir de meados de maio, teve a impressão que as negociações para contratação de espaços seriam suspensas, mas as conversas prosseguiram.

A indefinição política fez com que a Brookfield Properties passasse a adotar premissas de aquisição de ativos imobiliários mais conservadora. "Esperávamos uma curva de recuperação a partir do início do ano que vem, mas já consideramos que a retomada será mais lenta em pelo menos seis meses", disse Perroni.

O executivo da Brookfield ressalta que há dificuldade, no momento, para calcular rendimentos futuros sobre capital investido em escritórios e  galpões, pois não está claro se as projeções devem ter como base aluguéis depreciados ou estimativas de melhora. Segundo ele, é difícil dizer que os valores de locação terão mais quedas, mas o nível de benfeitorias exigido pelos ocupantes continuará elevado.

A TRX ­ gestora e desenvolvedora de galpões ­ não sentiu recuo nas negociações de galpões construídos sob medida ("build to suit") nem nas conversas com potenciais ocupantes de empreendimentos erguidos sem locação prévia (galpões especulativos), após o acirramento da crise. Houve, porém, segundo o presidente da TRX, Luiz Augusto F. do Amaral, retração por parte de investidores estrangeiros, que preferem esperar até que haja mais clareza do cenário.

Segundo o vice-­presidente da TRX, José Alves Neto, a empresa fechou, neste ano, três locações na região Sul, uma no interior de São Paulo e, mais recentemente, contrato em Guarulhos (SP).

O presidente da CBRE, Walter Cardoso, afirmou que nenhuma negociação de contratos de locação de escritórios e galpões intermediadas pela consultoria foi suspensa com a indefinição política. Não está claro, porém, segundo Cardoso, o que acontecerá com as novas negociações. "Ainda vamos ver se o ′não saber′ vai gerar um ritmo mais lento de negócios", diz.

Por enquanto, o efeito sentido pela CBRE foi de pedido de mais detalhamento, por parte dos contratantes, de algumas cláusulas e de flexibilidade, por exemplo, do número de meses de aluguel a serem cobrados em caso de multa. "As decisões estão mais cuidadosas", diz Cardoso. Segundo o executivo, o ano de 2017 iniciou com diminuição das taxas de vacância de escritórios em São Paulo.

O próximo ciclo de escritórios, na cidade de São Paulo, terá menos oferta de áreas do que os anteriores, de acordo com Cardoso, porque há menos terrenos disponíveis e o novo Plano Diretor é mais restritivo do que o anterior. Ao mesmo tempo, o investimento em imóveis se torna mais interessante à medida que as taxas de juros caem. O presidente da CBRE disse também que não há dúvida que "é a hora do Brasil de novo" no entendimento de investidores estrangeiros. Cardoso ponderou que a volatilidade cambial é ruim para os investimentos. "O melhor câmbio é aquele estável", afirmou.

Fonte: Valor - Empresas, por Chiara Quintão, 23/06/2017