O acelerado aumento dos preços das matérias-primas reverteu um período de dez anos de queda do custo da energia solar, o que reduziu o interesse dos investidores no setor após o recorde de alta observado em 2020.

As ações de empresas de energia solar caíram 18% neste ano, depois de terem mais do que triplicado de valor em 2020, de acordo com o Índice Mundial MAC de Energia Solar, numa época em que as empresas enfrentam aumento dos custos de frete, do aço e do polissilício, componente chave na produção de painéis fotovoltaicos para a indústria solar.

Apesar disso, o Citigroup prevê que as instalações vão aumentar 12% em 2021 em comparação a 2020

As pressões exercidas pela cadeia de suprimentos estão limitando o potencial para novas reduções dos custos das instalações de captação de energia solar, no momento em que os governos prometem se concentrar em uma “recuperação verde” a partir da pandemia.

O custo da energia solar caiu 80% entre 2010 e 2020, mas essas reduções drásticas chegaram ao fim, de acordo com a S&P Platts. “O discurso mudou no setor solar”, disse o analista Bruno Brunetti, da S&P Platts. “Vimos quedas acentuadas dos custos nos últimos dez anos, mas agora estamos vendo eles se estabilizarem e até aumentarem em alguns casos.”

Nos Estados Unidos, o preço das bobinas de aço galvanizado por imersão a quente, usadas em molduras e estruturas de painéis solares, mais do que duplicou desde o começo de 2020, para níveis recordes, de acordo com a S&P Platts. Ao mesmo tempo, os preços atuais das células de silício monocristalino, módulos que permitem a conversão da luz em energia elétrica, estão 25% mais altos do que no mesmo período do ano passado, de acordo com dados da BloombergNEF.

Além disso, as tarifas de frete na China deram um salto, de 41% neste ano, de acordo com o Índice de Frete Conteinerizado de Xangai, que reflete as tarifas de exportação de contêineres a partir da cidade chinesa.

John Martin, executivo-chefe do US Solar Fund, fundo de investimentos especializado no setor, disse que o aumento dos preços das matérias-primas deverá elevar os custos da instalação de nova geração de energia solar em 20% - o que reconduz os custos da energia solar aos níveis sustentados dois anos atrás.

“Os custos da descarbonização vão cair, mas ela não será gratuita. Será necessário capital”, disse ele.

A Associação das Indústrias de Energia Solar dos Estados Unidos disse, nesta semana, que “aumentos exacerbados de custos de todas as matérias-primas estão apenas começando a afetar os instaladores”.

Analistas do Citigroup reduziram sua previsão mundial da potência gerada por instalações de energia solar neste ano em 3,3%, para 145 gigawatts, devido aos altos preços do polissilício. Apesar disso, o banco prevê que as instalações aumentarão 12% em 2021 em comparação com o ano passado.

As ações da Array Technologies, com papéis registrados nos Estados Unidos, caíram 62% neste ano, devido, em parte, ao aumento dos custos do aço. A empresa fabrica rastreadores de aço que direcionam os painéis de captação de energia solar rumo ao sol durante o dia.

“Certamente há pressões inflacionárias na área. A pergunta é quem as absorverá e ainda não se sabe como será feita essa partilha”, disse Max Slee, gerente de carteira do Conselho de Assuntos Econômicos e Financeiros (Ecofin), do Conselho Europeu, em Londres.

“Os fatores macro e micro que impactam o setor de renováveis, por boa parte deste ano, resultaram em maior incerteza da parte dos investidores. No entanto, o panorama estrutural de médio e longo prazos continua atraente”.

Martin também concordou com o pressuposto de que o aumento dos custos não vai solapar o surto de crescimento da energia solar, pelo fato de ela ser, mesmo assim, mais barata do que construir uma nova usina de geração de energia elétrica a carvão. “O impulso pela instalação de [captação de energia] solar ainda é tão grande quanto dois anos atrás”, disse ele.

Mesmo assim, a crescente preocupação do setor solar é sua dependência do abastecimento de polissilício da China. Estima-se que 40% da produção chinesa provenha da região de Xinjinang, no extremo oeste do país, onde as fábricas foram acusadas de utilizar trabalho forçado.

Se os Estados Unidos e a Europa proibirem a compra desse polissilício, isso criará um “problema relevante” para a cadeia de suprimentos de captação de energia solar, disse Slee, ao elevar significativamente os custos.

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Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Henry Sanderson - Financial Times, 22/06/2021