Embora espere que a inflação fique um pouco acima do centro da meta em 2022, ao projetar o IPCA em 3,8%, o economista-chefe da XP, Caio Megale, não acredita que o Comitê de Política Monetária (Copom) precisará elevar a Selic além do nível neutro de 6,5% neste ano.

“Quando estendemos a visão para o horizonte relevante, vemos que a inflação estará de volta à meta. Não é claro que, em 2022 e em 2023, teremos uma situação desbalanceada entre oferta e demanda como a que vemos hoje. Além disso, é mais provável que, em 2022, conforme os auxílios acabem, a economia se acomode. O impulso na atividade deve ser concentrado neste ano”, diz.

 

A visão de que o juro básico terá de ser elevado até 6,5% até o fim deste ano vem na esteira de uma menor ociosidade na economia após números positivos de atividade e surpresas de alta na inflação. Assim, em relatório antecipado ao Valor, os economistas da XP apontam que o hiato do produto “está se estreitando mais rápido do que o previsto, sugerindo que a economia não precisará mais de estímulos monetários ao longo de 2022”. Além disso, eles lembram que “ancorar as expectativas de inflação é mais desafiador com a inflação corrente próxima de 9%”.

Com esse contexto em mãos, a expectativa da XP é que, nesta semana, o Copom entregue uma elevação de 0,75 ponto percentual da Selic, para 4,25% ao ano, e reforce o compromisso com a ancoragem das expectativas de inflação em torno da meta. Megale diz haver “uma dúvida grande” em torno da comunicação do Copom na decisão, mas, para ele, o mais provável é que o colegiado deixe de sinalizar que o cenário indica um ajuste parcial da política monetária.

“O ponto mais importante é olhar para o hiato do produto. Antes, víamos uma ociosidade que continuava ao longo de 2022 e aí valia a pena manter um pouco de estímulo para 2022. Por isso havia a visão de que um ajuste parcial seria feito e de que um pouco de estímulo seria deixado para ser tirado só lá na frente”, afirma Megale. “Com essas surpresas na atividade, o hiato deve se fechar no começo do ano que vem. Aí não faz mais sentido manter estímulo em 2022 se o hiato já fechou e se a inflação já está rodando perto da meta. O fundamento sugere a retirada da indicação de ajuste parcial.”

E é justamente ao pensar na ociosidade que o economista argumenta que o cenário não comporta uma taxa de juros acima do nível neutro. “O hiato está fechando mais rápido, mas ainda há um pouco de ociosidade na economia”, diz. Apesar das expectativas de crescimento forte neste ano - de 5,2% nas estimativas da XP -, “o ritmo na margem não é consistente com uma economia que cresce acima do potencial”, diz Megale.

“A inflação [de 2022] vai ficar acima da meta? Um pouco por causa de inércia e de preços administrados, mas não faz sentido o BC subir o juro além do neutro, sendo que a economia está se rebalanceando”, argumenta.

No relatório, a XP diz acreditar que o BC “entenderá que parte relevante das pressões inflacionárias para o próximo ano está relacionada aos preços administrados, e aceitará o IPCA um pouco acima da meta para garantir que o hiato do produto continue se fechando”.

O documento também aponta a expectativa de que o Copom apresentará, em suas projeções de inflação, números mais altos tanto para o IPCA de 2021 quanto para o de 2022. Nos cálculos da XP, o colegiado deve projetar uma inflação de 5,7% para este ano, ante uma estimativa de 5,1% na reunião de maio, e de 3,5% para 2022, ante projeção anterior de 3,4%.

Megale explica que o balanço de riscos se tornou um pouco pior devido ao aumento dos custos dos insumos e dos preços de energia. “Sem dúvida nenhuma o balanço está mais ‘hawkish’ [inclinado à retirada de estímulos]. Com o hiato se fechando antes, os preços de energia em alta e os custos dos insumos, a projeção de 2022 deve subir de 3,4% para 3,5%, apesar da apreciação do câmbio.”

Enquanto os juros mais altos e o câmbio atuam para atenuar a inflação do ano que vem, do outro lado estão o avanço dos preços das commodities, a inércia inflacionária deste ano e o menor nível de ociosidade, nota o economista.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende — De São Paulo, 14/06/2021