Em meio a discussões renovadas sobre se o Banco Central (BC) terá de levar a taxa básica de juros ao nível neutro ainda neste ano, a taxa de juros real atingiu o maior nível em quase dois anos na semana passada. Cálculos do Valor Data a partir do swap de juro de 360 dias, descontada a projeção de inflação de um ano, apontam que o juro real ex-ante alcançou a marca de 1,89% na última quinta-feira. É o maior patamar do indicador desde 28 de agosto de 2019 (1,90%).

O movimento de alta no juro real é observado apesar de uma elevação nas expectativas de inflação. No Boletim Focus divulgado hoje, é possível observar uma alta relevante na mediana das estimativas de inflação dos agentes do mercado para o IPCA de 2022. O ponto-médio das projeções passou de 3,70% para 3,78%, ou seja, se afastou ainda mais do centro da meta de inflação de 2022 (3,50%). As expectativas dos agentes, assim, estão centradas, agora na reunião desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC.

“Esperamos que o Copom aumente a Selic em mais 0,75 ponto, em linha com a comunicação da última reunião e precificação do mercado. Assim como na reunião anterior, uma das principais dúvidas é se o BC manterá, alterará ou removerá a redação sobre a normalização parcial”, aponta a economista-chefe para Brasil do J.P. Morgan, Cassiana Fernandez. Para ela, o comunicado do encontro desta semana “sairá com uma mensagem mais ‘hawkish’ [inclinada à retirada de estímulos monetários] em resposta a uma nova deterioração das expectativas de inflação”. O J.P. espera que a Selic termine o ano em 6,5%.

Na avaliação do J.P. Morgan, se a mudança nas projeções de mercado se estender até 2022, com expectativas do próximo ano “significativamente acima da meta”, “não podemos descartar a possibilidade de que o BC force ainda mais o aperto e aumente a Selic em 1 ponto percentual nesta semana”. A economista ressalta que esse não é o cenário-base, mas lembra que “o BC já adotou essa estratégia quando iniciou o ciclo de normalização com alta de 0,75 ponto em março”.

 

Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende, Valor — São Paulo, 14/06/2021