Os mercados financeiros no Brasil começam a semana em clima de intensa expectativa, especialmente pela agenda macroeconômica, que se trouxer dados mais fracos dará fôlego extra a renovadas apostas do lado da política monetária doméstica. A decisão sobre os juros pelo Fed (BC americano) é outro fator com potencial para gerar volatilidade nos ativos locais.
Caso venham mais fracos que o esperado, os resultados das vendas do varejo, do setor de serviços e do IBCBr todos referentes a abril vão reforçar as crescentes expectativas de que o Banco Central possa manter o ritmo de corte da Selic no encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do próximo mês.
Na semana passada, dados abaixo do esperado para o IPCA e o IGPDI de maio e a primeira prévia de junho do IGPM acabaram fortalecendo a leitura de que o cenário para a inflação não só segue benigno como pode surpreender para o lado positivo. Com isso, investidores passaram a considerar a possibilidade de o IPCA mostrar deflação em junho. Com os números nessa direção, o BC teria poucos motivos para desacelerar a velocidade da flexibilização monetária.
Além das leituras mais baixas dos índices de preços, o mercado interpreta que os membros do Copom têm evitado chancelar relação direta entre a crise política e as decisões de política monetária. Na sexta-feira, o comentário nas mesas de operação era que o presidente do BC, Ilan Goldfajn, "tirou" do radar um declínio de 0,50 ponto percentual da Selic no mês que vem. Com isso, a probabilidade embutida na curva de juros da B3 de corte de 1 ponto na taxa saiu de zero e chegou a alcançar 36%.
Os contratos de juros passaram a projetar 165 pontos-base de queda da Selic até o fim do ano. Na quinta-feira, a estimativa era de 138 pontos. E se as previsões de departamentos econômicos estiveram certas, os juros de mercado têm ainda mais espaço para cair. Bradesco e Itaú Unibanco mantiveram na sexta-feira estimativa de que a Selic caia a 8% até dezembro.
Ou seja, as duas maiores instituições financeiras privadas do país veem corte adicional de 225 pontos-base da Selic, 60 pontos a mais de redução do juro do que o embutido na curva futura da B3. Os dois bancos revisaram para baixo seus prognósticos para o IPCA e o PIB, fatores que colaboram com o cenário de queda dos juros.
Reforçando esse cenário, a inclinação entre os DIs de janeiro de 2019 e janeiro de 2018 chegou a cair para perto de zero na sexta-feira. Na prática, isso indica que o mercado vê menos riscos de o BC precisar voltar a apertar a política monetária no próximo ano. A título de comparação, há uma semana essa diferença estava em 15,5 pontos.
As renovadas apostas em torno da política monetária acabaram influenciando inclusive o mercado de câmbio. O dólar acumula alta de 1,80% em junho. Só na sexta-feira, a alta foi de 0,92%, para R$ 3,2946. Operadores atribuíram o movimento a uma maior demanda por proteção de agentes que ampliaram apostas na queda da Selic. "Ninguém quer ficar descoberto", resume o profissional de uma gestora, ao se referir ao posicionamento cauteloso dos investidores diante dos riscos de "fatos novos" em Brasília.
O dólar se encontra hoje no limite superior da banda em que tem operado desde meados de maio (entre R$ 3,25 e R$ 3,30). Mas, de forma geral, analistas dizem que os desdobramentos tanto do lado político quanto do econômico ainda não oferecem direção clara para o câmbio. Um bom termômetro da falta de certeza é o volume de negócios. A média diária de contratos de dólar futuro negociados na B3 na semana passada foi a menor em quatro meses.
A crise política até mudou o câmbio de patamar a moeda oscilava em torno de R$ 3,10 antes da delação dos executivos da JBS - , mas fluxos comerciais, alta moderada do risco-país, atuações do Banco Central e o comportamento benigno das moedas emergentes têm evitado depreciação mais intensa do real.
Por esses motivos, o Bradesco ajustou suas projeções para o dólar apenas modestamente. O banco espera agora que a moeda americana feche este ano a R$ 3,20 (de R$ 3,10 anteriormente). Mais conservador, o Itaú passou a considerar taxa de câmbio de R$ 3,50 no fim deste ano, ante R$ 3,25 no cenário anterior.
Fonte: Valor - Finanças, por José de Castro e Lucas Hirata, 12/06/2017

