A trégua na inflação sinalizada pela prévia de maio teve vida curta, e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) voltou a surpreender as expectativas do mercado ao avançar 0,83% no fechamento do mês. Divulgada ontem pelo IBGE, a alta superou o teto de 0,76% das projeções coletadas pelo Valor Data, foi a maior taxa para o mês desde 1996 e acelerou a medida acumulada em 12 meses, que se distanciou ainda mais do teto da meta (5,25%), atingindo 8,06%.

Segundo economistas, o resultado mostrou pressões já bastante conhecidas, como a dos bens industriais, mas pode ter sido o primeiro IPCA a trazer um vetor inflacionário adicional: os preços de serviços continuaram a rodar em nível muito baixo em 12 meses (1,74%), mas deram sinais de recomposição, movimento que tende a ganhar intensidade conforme a economia reabrir.

Levando em conta essa nova fonte de aceleração, o cenário hidrológico adverso e o choque de custos mais duradouro na cadeia produtiva, instituições financeiras e consultorias voltaram a rever suas estimativas para a inflação anual, que agora estão mais próximas de 6%. O teto da banda de tolerância da meta para 2021 é 5,25%. As revisões também incorporaram o número de maio.

 

O ganho de fôlego em relação a abril, quando o IPCA subiu 0,31%, foi em grande parte explicado pelas tarifas de eletricidade residencial, que aumentaram 5,37% e contribuíram com 0,23 ponto percentual para a variação do índice. A alta ocorreu devido à mudança da bandeira tarifária amarela para a vermelha patamar 1, que acrescenta R$ 4,169 nas faturas a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos. A gasolina foi outro importante impacto de alta no mês, de 0,17 ponto, ao avançar 2,87%.

Nos cálculos do IBGE, os preços administrados subiram 2,11% em maio e responderam por mais da metade (66%) da alta do IPCA no período. Em abril, tinham avançado 0,38%. “Ainda não dá para falar em pressão de demanda. A alta resulta de preços monitorados, principalmente energia e gasolina”, disse Pedro Kislanov, gerente do índice.

Economistas, porém, destacaram o comportamento da inflação de serviços, que ainda estão em nível bastante comportado, mas ficaram acima do esperado no mês. Em maio, o conjunto que reúne preços como aluguel, empregado doméstico e cabeleireiro teve deflação de 0,15%. A queda, contudo, foi em grande medida influenciada pelas passagens aéreas, que recuaram 28,3%.

Em sentido contrário, a inflação de serviços subjacente - medida criada pelo Banco Central, mais sensível à atividade econômica, que exclui os preços de turismo, serviços domésticos, cursos e comunicação - aumentou na passagem mensal, de 0,08% a 0,32%. Em 12 meses, subiu a 3,5%, vindo de 3,1%. Para Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, a alta sugere pouco espaço para o IPCA absorver novas pressões que podem surgir em razão da reabertura da economia, à medida que a vacinação avançar no segundo semestre.

Outro movimento que chamou atenção de analistas foi a alta dos núcleos, que excluem ou reduzem o impacto de itens voláteis sobre o IPCA. A média dos cinco núcleos acompanhados pelo BC ficou em 0,55% em maio, acima do 0,33% em abril. “Essas medidas, ao acelerarem entre abril e maio, reafirmaram as pressões evidenciadas pelos grupos do IPCA”, afirma Fabio Romão, da LCA Consultores.

Os desvios em relação à projeção de 0,65% para o IPCA de maio vieram de aumento mais forte dos combustíveis no mês, mas também de alguns serviços, principalmente alimentação fora do domicílio, afirma André Muller, economista-chefe da AZ Quest. Os preços de alimentação fora de casa subiram de 0,23% a 0,98%.

Os custos de bares e restaurantes subiram consideravelmente em 2020, quando a inflação de alimentos ficou perto de 20%, lembra Muller. “Nem sempre o repasse para os preços finais aconteceu, devido às restrições ao funcionamento desses estabelecimentos. Mas observamos que, nos poucos meses em que houve reabertura, houve nível mais alto da inflação de alimentação fora de casa.”

Isso ocorreu no último trimestre de 2020, em janeiro e em maio, diz o economista. Em sua avaliação, a leitura atual do IPCA foi a primeira em que houve “uma coincidência” entre a inflação dos serviços, que vinham surpreendendo para baixo em meio à pandemia, e dos bens industriais.

Este último grupo segue pressionado por restrições na cadeia de suprimentos e avançou de 0,53% a 1,28% na passagem mensal. No resultado acumulado em 12 meses, a alta é de 8,26%.

“Essa alta de bens industriais reflete a pressão que vem do IPA [Índice de Preços ao Produtor Amplo] industrial e mostra que há espaço para repasses de preços. Como os problemas na cadeia de produção são mundiais, a expectativa é que a pressão em bens industriais vai continuar”, diz o economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio Leal. Em 12 meses, o IPA sobe quase 50%.

Para ele, com a maior reabertura da economia no segundo semestre, os serviços podem deixar de atuar como “amortecedores” da inflação, ao passo que as pressões dos preços administrados e dos bens industriais vão continuar.

“Pressões nos preços ao produtor devido às cotações mais elevadas de commodities em reais continuam chegando ao consumidor”, nota Secemski, que aponta a alta de 0,48% para 0,98% nos bens comercializáveis. Em 12 meses, a inflação nesse grupo alcançou 12,2%, maior nível em mais de 17 anos, ressalta. “Esperamos que as últimas surpresas para cima na inflação do atacado continuem a pressionar os bens comercializáveis nas próximas semanas”.

A inflação acima do esperado em maio, o choque de custos no atacado e a maior probabilidade de estímulos fiscais adicionais levaram o Barclays a elevar a projeção para a alta do IPCA em 2021, de 5,4% para 5,7%. A estimativa para 2022 foi de 3,7% para 3,9% - a meta para o ano que vem é de 3,5%. A LCA também reviu seu cenário para 2021, que agora conta com alta de 5,8% do IPCA, 0,3 ponto acima do número anterior. A revisão foi fomentada pelo dado de maio e também pela perspectiva de novas altas, afirma Romão, que aponta o efeito direto e indireto do aumento da energia sobre a formação dos demais preços.


Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Arícia Martins e Lucianne Carneiro — De São Paulo e do Rio, 10/06/2021