Investidores têm adotado um tom mais otimista com a questão fiscal, com a ajuda da melhora nas projeções de crescimento da economia neste ano e ao custo de pressões inflacionárias expressivas no curto prazo. O otimismo tem se traduzido em valorização do real e em queda firme dos juros de longo prazo, mas pode ter fôlego curto.

Analistas observam que os fundamentos fiscais brasileiros estão longe de ser positivos e que o debate em torno do teto de gastos em 2022 deve se mostrar muito presente à frente, com possível impacto na dinâmica dos ativos.

Desde a revisão nas projeções do Ministério da Economia para o déficit primário deste ano, em 21 de maio, os ativos brasileiros embarcaram em um ambiente mais otimista. Considerando o intervalo entre essa data e sexta-feira, 28 de maio, o dólar exibiu uma queda de 1% ante o real e se aproximou mais de R$ 5,20, e a taxa do DI para janeiro de 2027 recuou de 8,84% para 8,49%.

Essa percepção ganhou força na semana passada e, entre alguns agentes de mercado, foi apelidada de “‘trade’ Mansueto”, em referência ao ex-secretário do Tesouro Nacional Mansueto Almeida, atual economista-chefe do BTG Pactual. Em evento organizado pelo banco, ele se mostrou otimista com a situação fiscal e lembrou que cenários de uma dívida bruta próxima a 100% do PIB deram lugar a algo em torno de 85% do PIB.

A economista-chefe do Credit Suisse Brasil, Solange Srour, diz enxergar o maior otimismo do mercado como uma situação “extremamente temporária”. “Se imaginarmos que a inflação vai retroceder e que o BC irá buscar a meta de inflação, que é perfeitamente factível de ser atingida em 2022, 2023, a melhora no curto prazo na arrecadação e o alívio na relação dívida/PIB pelo deflator maior se esvai”, afirma. Para ela, é preciso olhar mais para os fundamentos fiscais, que “estão longe de ser positivos”.

Solange diz haver ruído em relação ao teto em 2022. “Todo mundo entende que a inflação neste ano vai ficar bastante alta. Calculamos um pico de 8,3% em junho. O teto, então, seria reajustado em mais de R$ 115 bilhões. Existe um espaço largo para gastar, mas me preocupa ver como iremos usar esse espaço. Vamos aumentar gastos discricionários ou obrigatórios?”

Além disso, a economista aponta que, em 2022, a continuidade do teto estará em debate. “Será o ano em que o teto vai conseguir fazer com que a despesa desacelere em relação ao PIB, mas infelizmente também será o ano em que vamos discutir se o teto continuará em 2023 ou não e não há a menor possibilidade de a dívida ficar sustentável sem o teto.”

“No curto prazo temos uma boa notícia no cenário fiscal, mas os desafios estruturais continuam na mesa”, afirma o sócio e economista-chefe da RPS Capital, Gabriel Leal de Barros, para quem a avaliação do mercado de que o teto se mantém de pé até 2026 pode ser “otimista demais”. “A gente não sabe o que vai acontecer nas eleições do ano que vem. O cenário fica mais nebuloso a partir de 2023.”

No cenário da RPS, a relação dívida/PIB deve ficar em 83,5% neste ano. Em relação ao cumprimento do teto em 2022, Barros calcula que R$ 70 bilhões devem ser destinados para despesas obrigatórias e sobrarão R$ 50 bilhões para despesas discricionárias. “Mas tem um detalhe: o governo tem feito gastos que seriam dentro do teto fora dele, e isso tem permitido que as despesas discricionárias fiquem mais baixas, mas em 2022 não vai mais poder fazer isso”, pondera.

Outro risco para o cumprimento do teto no próximo ano, associado ao calendário eleitoral, é que os gastos com políticas sociais sejam turbinados com a criação de um programa de transferência de renda novo, acrescenta o economista-chefe da RPS. “Na medida em que se aproximar a eleição, esse espaço fiscal tende a ser consumido por mais gastos sociais e, olhando especificamente para 2022, se sobrar algum espaço, será muito pequeno”.

Para o estrategista-chefe da BTG Pactual Asset Management, Tiago Berriel, a melhora na relação dívida/PIB é uma boa notícia. No entanto, ele se mostrou cauteloso em comentários feitos no mesmo painel do qual Mansueto participou. “É um ajuste um pouco de sorte. O crescimento foi um pouco maior, mas, perto da evolução do PIB nominal, é um movimento de termos de troca, que não é uma coisa que nós controlamos. É fruto dessa expansão global que estamos vivendo”, disse. Além disso, Berriel apontou que não contaria com a evolução dos termos de troca para resolver o problema fiscal. “Um nível de dívida menor facilita, mas se vier acompanhado de mais irresponsabilidade não vai adiantar nada.”

De acordo com Rodrigo Cruz, gestor de câmbio e renda fixa da Meraki Capital, embora a melhora da perspectiva fiscal tenha gerado um alívio nos ativos, “os problemas não foram embora” e podem voltar a “assombrar” os mercados. Assuntos com potencial de gerar maior volatilidade devem voltar mais à frente, observa, ao citar a discussão sobre a redução das compras de ativos pelo Federal Reserve (Fed), a incerteza eleitoral e a reabertura econômica. “Eu não conseguiria ver de novo o DI para janeiro de 2029 em 6,80%, por exemplo.”

 

Fonte: Valor Econômico -Finanças, por Victor Rezende e Arícia Martins — De São Paulo, 01/06/2021