A crise hídrica pode ter efeitos sobre a economia e a inflação e é um risco que não pode ser ignorado, disse ontem o secretário especial de Fazenda, Bruno Funchal. O secretário do Ministério da Economia participava de audiência na comissão temporária da covid-19 do Senado e comentava as perspectivas para a recuperação da economia.

Funchal disse não haver dúvida de que quanto mais acelerado o país estiver no processo de vacinação, melhor será o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) neste e no próximo ano. Vacinação, crescimento e melhora fiscal estão intimamente ligados, mas há riscos pela frente, pontuou.

“Essa crise hídrica é um risco e a gente não pode ignorar isso. É um risco que pode trazer repercussão na reaceleração da economia e na inflação. Bandeiras vermelhas podem impactar na inflação”, afirmou.

Como mostrou o Valor ontem, o setor elétrico é um ponto de atenção para a área econômica do governo. O quadro ainda não está muito claro, mas a leitura preliminar de alguns interlocutores é que, para este ano, o risco de um apagão/racionamento ainda é tratado como baixo, embora não se deva descartá-lo. No curto prazo, o risco mais relevante é pelo lado da inflação.

Funchal foi questionado por senadores sobre uma possível prorrogação do auxílio emergencial e sobre os valores praticados neste ano, menores que os de 2020. O secretário afirmou que os recursos podem ser considerados insuficientes, mas que “é o máximo” que o governo consegue fazer neste momento.

“No ano passado, o gasto foi muito grande, de 10% do PIB. Este ano não existe espaço para fazer este gasto”, disse. A manutenção de qualquer política grande exige que o país tenha boa condição fiscal, acrescentou, “senão é voo de galinha”. “A gente não pode fazer uma coisa espetacular hoje e amanhã deixar essa população desguarnecida. Temos que balancear isso.”

O secretário disse ainda esperar que a medida provisória (MP) de crédito extraordinário para o Programa Nacional de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Pronampe) saia ainda nesta semana. Para ajudar pequenas empresas, a primeira medida “é manter a economia organizada e os juros baixos”, disse. No cenário de crise, há ainda o programa que permite a redução de jornada e suspensão de contrato e a política de crédito.

Questionado sobre a agenda de reformas, ele disse que a tributária e a administrativa são as prioridades para 2021. Em relação à primeira, afirmou que é preciso fazer o “cálculo político” e que o fatiamento, como vem defendendo o governo, pode ser o melhor caminho para destravar a discussão.

“Tem um ponto final que a gente quer chegar, que é desburocratizar todo o sistema, federal, estadual e municipal. Agora, fazer o todo, sinceramente, acho que é aquilo de custo-benefício”, afirmou. Para ele, “se a chance de sucesso for muito maior” com a aprovação inicialmente de um IVA federal, essa deve ser a opção, mesmo que o impacto sobre o sistema seja menor. “É importante andar mesmo que mais lentamente”, disse.

Ele admitiu ainda que a agenda de abertura comercial, uma das pautas prioritárias do ministro da Economia, Paulo Guedes, desde a campanha eleitoral, está atrasada e precisa avançar. “Sabemos que o impacto é grande.”

A dotação para as medidas de enfrentamento à covid-19 em 2021 está projetada, até o momento, em R$ 92,2 bilhões, afirmou. Desse total, foram empenhados R$ 84,5 bilhões e pagos R$ 31,3 bilhões. Considerando os restos a pagar relativos ao ano passado, o valor total dos gastos previstos para o ano sobe para R$ 101,5 bilhões. “Há esse conjunto de medidas boas que estão sendo reeditadas, mas precisamos ser cuidadosos com o fiscal”, alertou.

 
 

Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Mariana Ribeiro — De Brasília, 01/06/2021