O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, mostrou nesta segunda-feira que o governo vai alterar o escopo do programa que financia o pagamento de salários de pequenas e médias empresas. Campos Neto participou de audiência pública na Comissão Mista de acompanhamento dos gastos da Covid-19 no Congresso Nacional.

O programa, instituído pela Medida Provisória 944, não estava atingindo os resultados esperados. Dos R$ 40 bilhões disponíveis, apenas R$ 1,9 bilhão foi financiado até a última semana.

Segundo a apresentação do presidente do BC, foram feitos aperfeiçoamentos na MP para inclusão de empresas com faturamento bruto anual em 2019 entre R$ 10 milhões e R$ 50 milhões. Na versão inicial, o limite de faturamento era de R$ 10 milhões. Além disso, as mudanças contemplam a extensão do programa por mais dois meses e a concessão de financiamento para empresas que mantiverem ao menos 50% dos postos de trabalho.

A expectativa é de impactos adicionais de R$ 5 bilhões de extensão de dois meses para empresas atualmente elegíveis e de R$ 5 bilhões para empresas na nova faixa de faturamento.

De acordo com Campos Neto, essa linha de crédito não teve o efeito esperado inicialmente pelo governo devido a entraves como a possibilidade de suspensão de contrato por dois meses e restrição de não poder demitir. Com os ajustes feitos, ele acredita que a demanda deve crescer e a linha pode chegar à marca de R$ 20 bilhões em empréstimos. “Com as modificações, o alcance será maior."

Inflação

Campos Neto afirmou aos parlamentares que a meta de inflação não deve ser alterada por conta de desvios temporários. “Não deve mudar. Meta deve ser mais estável", resumiu.

Segundo ele, a política monetária não está exaurida. “Usar outros instrumentos agora, não seria bom, faria com que o sistema inclusive perdesse credibilidade”, contou.

Para ele, a emissão de moeda não deveria ser utilizada neste momento. “Se criar uma assimetria sobre juro (quando a inflação está alta, aumentar o juro e, quando está baixa, emitir moeda), na visão do mercado vai ficar a expectativa de que a inflação vai ficar sempre alta.”

Ele ressaltou que a inflação alta é o pior imposto pois prejudica os mais pobres. Campos Neto lembrou que o país viveu um período de hiperinflação e que não houve perda de renda da classe mais alta no país.

Banco do Brasil

O presidente do BC se eximiu de opinar sobre a possibilidade de privatização do Banco do Brasil (BB). “Somos regulador do sistema financeiro e por isso não temos visão sobre privatização do BB”, destacou.

“Como órgão regulador não posso ter opinião sobre privatizar ou não”, afirmou, acrescentando que essa é uma política de governo. Ele disse no entanto que o BB tem um valor enorme e prestação de serviço à população e concentração nos financiamentos para o setor rural. “Não tenho como tecer comentários adicionais”.

O presidente do BC destacou ainda que com a crise provocada pela Covid-19 “o mundo empobreceu e vamos sair dessa crise não só mais pobres, mas com mais dívidas”.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Edna Simão e Alex Ribeiro, Valor, com Agência o Globo -Brasília, 01/06/2020