O receio de que o Federal Reserve (Fed) inicie nos próximos meses a discussão sobre redução de estímulos (ou “tapering”), combinado à incerteza fiscal, deve impedir uma queda do dólar para abaixo de R$ 5 até o fim do ano. Enquanto isso, se o real se beneficia ante outras emergentes dos melhores termos de troca da economia brasileira e da alta da Selic, tais fatores irão compensar apenas em parte os efeitos adversos de um eventual reflexo do Fed no real, dizem analistas ouvidos pelo Valor.

O real está entre as divisas emergentes que mais obtiveram ganhos em maio, com alta acumulada de 2,09%, superado apenas pelo rand sul-africano e o rublo russo no período, que avançaram 3,85% e 2,28%, respectivamente. Na América Latina, o peso mexicano tem alta de 1,69% no mês, enquanto o peso chileno cai 2,59%.

 

Na avaliação de Andrés Jaime, responsável pela estratégia de América Latina do Morgan Stanley, deve haver espaço para alta das moedas emergentes, como o real, dado que o “tapering” não deve ocorrer tão logo. O profissional vê o dólar podendo chegar a R$ 5 em um mês, mas alerta que as contas públicas e as eleições de 2022, que podem impactar o desenho fiscal do Brasil, dificultam a sustentabilidade desse movimento. Para o fim do ano, ele vê o dólar a R$ 5,30.

“Algo que pode ajudar o real em termos relativos aos pares é que o Banco Central está elevando juros mais agressivamente do que se esperava”, afirma. “Mas, no médio e no longo termo, tudo depende do fiscal e sobre isso sou muito cético”, diz, citando que medidas fiscais dificilmente serão aprovadas a tão pouco tempo das eleições. Segundo Jaime, o peso colombiano é hoje a moeda mais frágil para enfrentar o tapering. Isto porque a Colômbia possui uma política monetária frouxa (juro de 1,75% ao ano), além de participação relativa maior do estrangeiro na dívida pública e contas externas negativas.

Na outra ponta, o peso mexicano é uma divisa que deve mostrar resiliência, avalia Wilson Ferrarezi, da TS Lombard. Isto porque, pela ligação comercial entre os países, a economia mexicana se aproveita mais do crescimento americano. “O México conseguiu manter compromisso com a disciplina fiscal. É um caso bem diferente do nosso, onde a permanente incerteza sobre a trajetória da dívida transmite um grande prêmio de risco ao câmbio. No cenário de tapering, o espaço para uma queda do peso mexicano é menor do que do real.”

Com a atual safra de dados americanos apontando para direções diversas, é difícil cravar um cenário de como se comportarão a inflação, os juros e o humor dos investidores globais nos próximos meses, mesmo diante de um Fed firme ao dizer que nenhuma retirada de estímulo está no horizonte. O cenário do Deutsche Bank, por exemplo, prevê que os EUA conseguirão crescer aceleradamente e com inflação moderada, o que é o melhor cenário para o real e seus pares.

“Eu acho muito difícil passar o segundo semestre e o começo do ano que vem sem sustos. Com o hiato do produto se fechando e o Fed perseguindo uma política monetária muito mais holística, os mais ortodoxos ficarão desconfortáveis”, diz o chefe de estratégia para mercados emergentes do Deutsche, Drausio Giacomelli. “É difícil o mercado não testar os mais vulneráveis” nesse contexto, acrescenta, incluindo o Brasil nessa categoria.

De olho na fragilidade que o fiscal impõe ao real, o Credit Suisse, inclusive, encerrou o grosso das posições favoráveis à moeda, mantendo apenas alguma estruturas de opções para ganhar com alguma queda adicional. Estrategista de renda fixa do banco, Luciano Paiva vê chance de o real se aproximar dos R$ 5 nos próximos meses, antes de voltar a R$ 5,20 até o fim do ano.

A raiz dessa dificuldade em sustentar quedas mais vistosas é justamente o fiscal, diz Paiva. Fatores como uma conta corrente próxima do equilíbrio e a tendência de alta da Selic ajudam, mas não devem ser suficientes para se contrapor ao viés trazido de fora. “O real é uma moeda com beta [jargão de mercado para sensibilidade] alto, melhora mais quando o ambiente é bom e piora mais quando é ruim”, diz o profissional.

Na outra ponta, a Armor Capital mantém uma pequena posição comprada em real. “Temos uma visão de apreciação no curto prazo, conforme os exportadores têm internalizado recursos e o câmbio contratado tem andado mais perto do embarcado”, afirma o gestor Alfredo Menezes. Para ele, a alta da Selic também deve levar o estrangeiro a reduzir a posição comprada [que aposta na alta do dólar], atualmente em cerca de US$ 30 bilhões, dado que diferencial de juros maior encarece o uso do real como hedge para operações com outras moedas da região.

A Armor vê que a balança comercial brasileira tão positiva atualmente mostra que o real tem sido beneficiado ante pares pelos melhores termos de troca. Assim, como a demanda por grãos, que compõe a maior parte da pauta exportadora do Brasil, não varia de acordo com efeitos de política monetária mais restritiva no exterior, a divisa brasileira poderá não ser tão penalizada quanto a de pares pela normalização do Fed.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Felipe Saturnino e Marcelo Osakabe — De São Paulo, 25/05/2021