Após passar a primeira parte do dia em queda, sustentado ainda pela reação a um dado de inflação local, o câmbio acabou entregando os pontos e se alinhando com o exterior na tarde desta terça-feira (25). Como resultado, o dólar comercial fechou em alta de 0,25%, negociado a R$ 5,3371.
Participantes de mercado não souberam precisar um motivo claro para a virada, mas notaram que houve piora do apetite por risco no exterior, que afetou outras classes de ativos e também fez outras divisas emergentes passarem a operar no vermelho.
Pela manhã, uma recuperação ainda guiada pela refluxo das preocupações com relação à inflação nos Estados Unidos fez o real e outros pares comparáveis avançarem terreno. No Brasil, esse viés recebeu algum reforço do noticiário sobre reformas e a divulgação do IPCA-15, que desacelerou para 0,44% na parcial de maio.
Embora tenha vindo abaixo da mediana de 0,54% das projeções colhidas pelo Valor Data, o dado sugere uma pressão persistente dos itens menos voláteis. Isso levou várias instituições a revisarem para cima seus números para 2021. O Barclays, por exemplo, revisou sua expectativa para o IPCA no fim de 2021 para 5,4%. O banco também espera, agora, que o Copom eleve a Selic para 6,5% já em dezembro (de 5,5% anteriormente). Na projeção anterior, esse patamar seria atingido apenas no segundo trimestre de 2022.
As pressões inflacionárias e a reação do Copom a elas são fatores importantes para projetar a atratividade de uma moeda. Em evento organizado pelo BTG nesta manhã, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, admitiu que se terá uma inflação reprecificada para cima, e uma contaminação de emergentes por causa da recuperação mundial. Ainda assim, ele salientou não entender que "vai ter um movimento de inflação gigante" no mundo e reiterou que considera essas pressões transitórias. Campos também voltou a se mostrar otimista sobre a atividade doméstica, mesmo com um atraso da vacinação neste momento.
Para o chefe de estratégia para mercados emergentes do Deutsche Bank, Drausio Giacomelli, uma alta de juros é positiva para o real até certo ponto. "Tem uma hora que precisa pensar na dívida. Existe um ponto de inflexão, onde esse seguro extra representado pelo juro maior começa a virar algo prejudicial", diz o profissional. Embora não diga que esse momento esteja necessariamente perto, Giacomelli pontua que a situação fiscal do país demanda mais empenho do que as autoridades brasileiras mostram.
Em sua avaliação, o real tem um bom valuation precificado, porque tem muita incerteza embutida no preço. Isso significa que, se houver uma melhora da sinalização em relação ao cenário fiscal, às reformas, existe um "colchão" que pode ser reduzido, mesmo durante uma recaída do humor externo, que é justamente a melhora observada pelos pares emergentes e que não foi colhida pela moeda brasileira até o momento.
"A questão é que, com as sinalizações recentes do governo brasileiro, fica difícil acreditar nisso", diz Giacommeli. "As últimas ações do governo mostram que a dificuldade em implantar um aperto fiscal não é somente uma restrição política, mas também de falta de vontade política".
Para economistas do Citi, a recente recuperação do real observada nas últimas semanas não deve ter vida longa, apesar de uma performance robusta da conta corrente este ano. “Olhando para frente, os riscos domésticos permanecem elevados e nós mantemos nossa projeção de que o gasto público total do governo irá ultrapassar o teto em 2,0% do PIB”, diz a nota assinada pelos economistas Leonardo Porto, Paulo Lopes e Thais Ortega.
O Citi também ressalta que o cenário do banco é de uma valorização do dólar ao longo do restante de 2021, influenciada pela perspectiva de que a recuperação econômica e da inflação nos Estados Unidos irá levar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) a iniciar uma redução do ritmo de compras de ativos no final deste ano.
O banco americano projeta um dólar a R$ 5,58 no fim do ano. A combinação de um câmbio depreciado e commodities em alta deve fazer com que a conta corrente tenha superávit de US$ 14,1 bilhões, ou 1% do PIB, o primeiro resultado positivo desde 2006, acrescentam os economistas.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe, Valor — São Paulo, 25/05/2021

