O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, reafirmou a visão de que que o surto inflacionário dos últimos meses é temporário, citando vários sinais de que o ciclo de pressão de commodities pode não se perpetuar no futuro.
A avaliação dá suporte à sinalização de ajuste parcial na taxa básica de juros, embora ele tenha ressaltado mais uma vez que essa indicação está sujeita a modificações se o cenário econômico mudar.
“O que vai fazer isso mudar?”, perguntou retoricamente, referindo-se à sinalização de ajuste parcial de juros. “Mudança de cenário. Quando a gente olha hoje, existem muitas incertezas.”
Em seguida, ele desfilou uma série de fatores que indicam que, no caso do surto inflacionário de commodities, ele tende a não se perpetuar ao longo do tempo.
Ao falar de inflação, Campos Neto repetiu muito do que já havia dito na segunda-feira, em outro evento virtual. Naquela ocasião, porém, o mercado financeiro deu maior importância à indicação do presidente do Banco Central de revisão para cima nas projeções para atividade.
Como na segunda, Campos Neto disse que o preço do milho, após um pico grande, passou a cair. Citou que a nova onda de contaminação na Ásia pela covid provocou um freio na alta de preços de petróleo. Também mencionou que a China está colocando um freio nas posições especulativas no mercado de commodities metálicas.
Uma novidade foi Campos Neto ter reproduzido um argumento feito há duas semanas pelo diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra Fernandes, de que a reabertura da economia poderá reduzir a pressão sobre os preços de bens.
Segundo esse argumento, uma parte do choque de commodities tem a ver com fatores ligados à procura – a demanda se deslocou de serviços para bens com o fechamento da economia. Agora, com a reabertura possibilitada pela vacinação em massa, o movimento seria o contrário, atuando na direção de aliviar a pressão de demanda por commodities.
Ele citou ainda a controvérsia que existe entre os economistas sobre os serviços. Um grupo, segundo ele, diz que a inflação de serviços vai ser mais forte com a reabertura da economia. Outro diz que os serviços já voltaram para o valor pré-pandemia, e os efeitos na inflação já estão parcialmente considerados.
Ao traçar esse cenário mais positivo para a inflação, porém, Campos Neto fez a ressalva que o Banco Central pode mudar de ideia se o cenário mudar também.
“É importante esclarecer é que nossa meta de inflação vai ser cumprida”, disse. “Fizemos mais que o mercado achava, e vamos seguir nesse caminho.”
Mas, aparentemente, foi mais uma repetição de um aviso usual do que a comunicação de uma mudança de cenários para os juros.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro, Valor — São Paulo, 25/05/2021

