Líder do mercado brasileiro de cimento em vendas e sexta maior do mundo em capacidade de produção, a Votorantim Cimentos informou ontem que não vai se furtar em analisar os ativos do grupo franco-suíço LafargeHolcim no país colocados para venda. “Na posição de líder no Brasil temos o dever de considerar toda e qualquer oportunidade de negócio”, disse o presidente da VC, Marcelo Castelli, em entrevista ao Valor.
Segundo o executivo, a empresa vai seguir o processo de venda da LafargeHolcim, avaliar as condições e ver como será realizada a operação, se em um único bloco ou em partes. E, mais ainda, as situações dos ativos e que potencial de retorno trariam para a VC numa possível aquisição. “Vamos analisar, com parcimônia, pois temos uma estratégia global e continuaremos, sempre, muito seletivos”, afirmou Castelli.
O grupo franco-suíço decidiu sair do Brasil, por razões de estratégia de negócios no setor. No país, é o terceiro maior fabricante, com operação de dez fábricas e outras unidades (centros de distribuição e mineradoras de calcário). O valor do pacote é estimado, no mínimo, em US$ 1 bilhão, em dinheiro.
No Brasil, a VC é líder de mercado com cerca de 30% a 35% do volume comercializado, o dobro da vice-líder, a InterCement (Mover/ Camargo Corrêa). O setor conta com 23 grupos fabricantes e viveu uma profunda crise de 2015 a 2018. A recuperação do consumo começou em 2019 e no ano passado teve alta de 11%.
Segundo Castelli, a VC não está impedida de participar do processo da LafargeHolcim, negócio que passará pelo crivo do Cade, o órgão antitruste brasileiro. “Todos os players que estão no país terão de passar por essa avaliação, uma vez que algumas fábricas terão sobreposição”. Nesses casos, o Cade costuma aplicar o critério de “remédios”, ou seja, obriga a venda de ativos para aprovar.
A estratégia da VC, destacou, passa por uma visão mais global, buscando maior equilíbrio entre mercados emergentes e maduros, porém com países de moeda forte, como dólar e euro. Nesse caso, a atenção se volta para oportunidades como a que teve em 2020. Fez uma transação, em ações, para comprar a McInnis Cement da Caisse de dépôt et placement du Québec (CDPQ), investidor institucional, que ficou com 17% da VC na América do Norte.
Com a operação, a capacidade de produção da VC na região (EUA e Canadá) cresceu 40% ao agregar uma fábrica construída em 2017, além de um amplo sistema de distribuição e navegação cobrindo a Costa Leste até a cidade de Nova York. “Foi uma grande oportunidade, justamente no momento em que o governo de Joe Biden fala em investir pesado no setor de infraestrutura”.
Sobre a esperada abertura de capital da VC, Castelli disse que ainda não está na hora para a empresa, apesar do bom momento que vive o setor no país e do movimento nessa direção de duas fabricantes - InterCement e CSN Cimentos - que já estão com processo avançados para irem à B3.
“Nosso objetivo é diferente. É por uma oferta publica de ações (IPO) global. Será uma ‘dual listing’ - na B3 e numa Bolsa do exterior”. Perguntado se seria em Nova York, Castelli admitiu que é forte candidata. Na bolsa nova-iorquina outra empresa do grupo, a mineradora de zinco Nexa Resources já tem ações negociadas há três anos, além de Toronto. Nesta semana, a CBA (que faz alumínio) anunciou que pediu registro na CVM para se listar no Novo Mercado e levantar R$ 2 bilhões. Na B3, também está a geradora de energia Cesp.
O executivo disse que a VC está ajustada, com sua governança em linha com uma companhia aberta desde a tentativa de ir à Bolsa em 2013, que acabou frustrada com a mudança de humor dos investidores na reta final da operação. “Temos uma empresa eficiente, financeiramente equacionada e com muitos projetos para realizar no Brasil e exterior”.
Ele diz que há oportunidades para ampliar a presença da VC em mercados de moeda forte, para equilibrar a receita e a geração de caixa - hoje, metade da receita é Brasil e há fábricas em outros países da América do Sul, no Marrocos, Tunísia e Turquia. “O IPO, para nós, é um meio; não um fim”.
Com a crise no mercado cimenteiro no Brasil, os acionistas aportaram R$ 4,7 bilhões na VC nos últimos seis anos, reforçando sua estrutura de capital. Agora, a VC está devolvendo parte. A empresa aprovou R$ 700 milhões em dividendos - R$ 345 milhões já pagos em fevereiro. A última vez foi em 2014. O mesmo valor está previsto no segundo semestre, informou Osvaldo Ayres Filho, diretor financeiro global da empresa.
Ontem, a VC divulgou o balanço do primeiro trimestre, reportando lucro líquido de R$ 227 milhões. Com isso, reverteu perda de R$ 380 milhões de um ano atrás. “Tivemos um resultado bastante sólido”, comentou Ayres. Ele destacou a expansão de 318% no Ebitda ajustado, para R$ 971 milhões, com margem de 24%. A geração de Ebitda na operação do Brasil foi de R$ 594 milhões - aumento de 433%.
“Tivemos um trimestre forte tanto em volume e quanto em preços”, disse. A receita líquida no período atingiu R$ 4 bilhões, com aumento de 46% ante os R$ 2,75 bilhões do primeiro trimestre do ano passado. O Brasil foi responsável por R$ 2,2 bilhões.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Ivo Ribeiro — De São Paulo, 20/05/2021

