Imprimir casas inteiras para responder, de forma rápida e eficiente, à questão do déficit habitacional nas camadas de baixa renda no Brasil. A ambição futurista é o cerne dos negócios da Urban 3D, startup brasileira que estuda e desenvolve métodos de impressão em três dimensões (3D) e manufatura digital para aplicação em moradia social. "A ideia é digitalizar o processo de construção, produzindo todas as peças de concreto necessárias em um projeto", destaca Anielle Guedes, fundadora da Urban 3D.
No modelo proposto pela equipe de Anielle, impressoras de concreto gigantes são levadas aos canteiros de obras ­ como uma fábrica  itinerante ­ e lá produzem as estruturas, seguindo os modelos e plantas planejados e testados previmente nos computadores. As peças serão, então, manipuladas e empilhadas por máquinas e robôs, com pouca interferência humana. "É como montar um grande Lego", explica. Segundo ela, esse nível de automação e digitalização reduz de forma exponencial (em até dez vezes) os custos, o tempo de construção, o uso de material e de mão de obra.

"A manufatura digital gera ainda menos resíduos, respondendo à questão da sustentabilidade", diz. Anielle segue o rastro de  esquisadores e empresas que se empenham em imprimir paredes, escadas, pontes e as mais diferentes estruturas para construção  civil. Em todo o mundo, as experiências testam materiais que vão do cimento ao metal. A ideia de aplicar a tecnologia na moradia  social surgiu durante intercâmbio que a empreendedora fez na base californiana da Nasa EUA). "Há estudos para enviar robôs capazes de imprimir casas na Lua e em Marte. Eu acredito que temos um problema grande para resolver na oferta de moradia com qualidade aqui no Brasil", diz. Segundo ela, as pesquisas estão concentradas nos materiais ­ e nas misturas com resinas e outras substâncias ­ mais eficientes e duráveis para a impressão. Durante sua palestra no 88º Encontro Nacional da Construção Civil, realizado em Foz do Iguaçu na semana passada, Anielle mostrou à plateia um bloco de concreto e estruturas plásticas (canaletas para fios)  impressas. A presença dos produtos mostra o avanço da tecnologia e sua proximidade para aplicação real. "As habitações têm de ser fortes, duráveis e com alto padrão de engenharia civil", destaca.

Ela admite, no entanto, que há um longo caminho para o Brasil adotar tecnologias como essa. Uma delas passa por digitalizar todo o processo de planejamento e desenho das obras. "As empresas com foco em habitação  popular terão de atualizar seus sistemas e métodos de trabalho", comenta. Ronaldo Cury, vice­presidente de habitação do Sindicato da Indústria da Construção Civil SindusCon­SP), aponta que a mão de obra ainda é um insumo barato no país, o que desmotiva a adoção de novas tecnologias. "A alvenaria estrutural ­ método vigente desde o antigo Egito ­ é o mais barato e utilizado por aqui", diz Cury. De acordo com ele, o setor tem de passar por uma transformação cultural para entender as vantagens da digitalização. "Estamos avançando na fase da industrialização das peças, levando aos canteiros lajes e outros componentes pré­fabricados. O salto para impressão na obra é enorme", diz. Para Anielle, a engenharia brasileira precisa se modernizar para obter maior eficiência nos canteiros.

"É inevitável". Chegar com tecnologia na ponta é, segundo a empreendedora, a melhor forma de comprovar a capacidade de construção do país. "Nossa engenharia é reconhecida mundialmente pelos grandes projetos. Não há motivo para ser ineficiente na etapa da obra". Na mão de obra, cita, a média brasileira é de 88 horas/homem por metro quadrado construído. Na Dinamarca ­ um dos países mais avançados na automação da construção ­ o índice é de 22 horas/homem por metro quadrado. "Somos quatro vezes menos eficientes, quando comparamos mercados que utilizam tecnologia já disponível e disseminada de construção", diz Anielle.

Para Carlos Henrique de Oliveira Passos, presidente Sinduscon­BA, o mercado terá benefícios enormes em adotar novas tecnologias. O principal deles está na redução dos custos da moradia popular.


Fonte: APeMEC, 18/05/2016