O comportamento da inflação e das expectativas de inflação de médio prazo foi o principal tema abordado na primeira reunião entre economistas de mercado e diretores do Banco Central (BC) nesta segunda-feira. Os encontros são realizados trimestralmente pela autoridade monetária e servem como base para a elaboração do Relatório de Inflação (RI) do BC.
O Valor conversou com alguns participantes do encontro, que relataram que o sentimento geral entre os presentes era de maior preocupação com a inflação neste ano, acima de 5%, o que poderia contaminar a inflação de 2022. “Deu para sentir as pessoas mais preocupadas”, apontou um participante da reunião. “Esse grupo acha que existe o risco de contaminar a inflação de 2022 e acredita que o BC vai ter que jogar a toalha em relação ao ajuste parcial”. Há divisão, contudo, justamente em relação a uma normalização completa ou em partes da política monetária neste ano.
De acordo com esse participante, há um grupo que está menos preocupado e que vê a alta recente da inflação como temporária, na linha do que tem apontado o BC, e que ainda enxerga espaço para uma normalização parcial da política monetária neste ano. O participante também afirmou que a avaliação dos economistas é positiva em relação ao crescimento deste ano, com alguns revisando para 4% a estimativa de crescimento deste ano, enquanto alguns esperam um PIB em torno de 5% com um “boom” do consumo no segundo semestre devido à vacinação.
“Existe uma clara diferenciação de grau nessa discussão sobre o PIB, mas, para 2022, a maior parte vê uma desaceleração da economia”, disse o participante. Ele apontou que alguns integrantes da reunião esperam um crescimento abaixo de 2% por 2022 ser um ano complicado, com eleições presidenciais.
Outro participante do encontro notou uma discussão, em geral, mais inclinada para o lado “hawkish”, com riscos para uma inflação mais alta, atividade mais forte e riscos fiscais no segundo semestre. Além disso, o cenário externo também foi bastante comentado no encontro. De acordo com esse participante, foi abordada a possibilidade de o cenário externo mudar de direção rumo a uma “remoção de estímulos monetários nas economias avançadas na medida em que a reabertura prossegue”.
Em linha gerais, resume outro integrante da reunião, “algumas pessoas falaram que o mercado está mais suscetível a correções a partir do fim do ano, seja aqui ou lá fora”. O gatilho para essas correções pode ser o próprio Federal Reserve (Fed, banco central americano) e, do ponto de vista local, a questão eleitoral, que começaria a entrar nos preços dos ativos, diz esta pessoa.
Outro economista aponta que a maioria das pessoas que falaram no encontro se mostrou mais alinhada ao diagnóstico do BC de que a inflação mais forte no curto prazo é temporária e de que existe espaço para um ajuste parcial da política monetária, com a Selic em torno de 5,50% neste ano, já que, olhando à frente, em 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) irá desacelerar e as expectativas de inflação do próximo ano ainda estão ancoradas.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino, Valor — São Paulo , 17/05/2021

