Contrariando as previsões de um pequeno crescimento no primeiro trimestre, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,13% em relação ao último trimestre de 2017, a primeira queda nesse tipo de comparação desde o fim de 2016. Em março, a queda foi de 0,74% ante fevereiro, feito o ajuste sazonal, resultado que ficou abaixo até do piso das projeções do Valor Data, que iam de queda de 0,6% a alta de 0,2%. A estimativa média era de queda de 0,2%.
Os dados divulgados ontem são os últimos de uma sequência negativa de indicadores, que teve início em janeiro e que mostram, de maneira generalizada, uma retomada lenta da atividade econômica no começo deste ano. Em março, o comportamento do IBC-Br foi influenciado pela queda de 0,1% da produção industrial, recuo de 0,2% dos serviços e alta de 0,3% do varejo, medidos pelas pesquisas setoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os números recentes também indicam, segundo economistas, que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2018 deve ficar cada vez mais próximo de 2%, em vez de expansão na casa dos 3% estimada por parte do mercado até algumas semanas atrás. O PIB do primeiro trimestre será divulgado no próximo dia 30 e, na estimativa dos analistas, deve ficar entre a estabilidade e crescimento de 0,5%.
A incerteza eleitoral, a lenta recuperação do mercado de trabalho e a vagarosa queda dos spreads bancários, diferença entre as taxas que os bancos pagam para captar recursos e as que cobram do cliente, são fatores apontados como responsáveis pela desaceleração da retomada da economia.
Nos cálculos de Alberto Ramos, diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas para a América Latina do Goldman Sachs, o IBC-Br de março deixa uma herança estatística negativa de 0,53% para o segundo trimestre. Isso significa que se, ao longo do período, o indicador permanecer no mesmo nível de março, haverá retração de 0,53% na atividade medida pelo BC. Para o ano de 2018, segundo Ramos, a herança estatística ainda é positiva, de 0,4%. Ou seja: se até dezembro o IBC-Br permanecer no nível de março, haverá alta de 0,4% em relação a 2017.
Após a divulgação do índice do BC, o Bank of America Merrill Lynch revisou para baixo a sua projeção para a alta do PIB deste ano, que passou de 3% para 2,1%. De acordo com a equipe econômica da instituição financeira, junto com outras "surpresas recentes negativas", o IBC-Br sugere uma recuperação mais fraca.
O indicador do BC tem metodologia distinta das Contas Nacionais calculadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo assim, é visto por parte do mercado "como uma proxy do PIB", lembra o Banco Fator em relatório.
O IBC-Br de fevereiro foi revisado de alta de 0,09% para recuo de 0,10%. Na comparação com o primeiro trimestre de 2017, houve crescimento de 0,86%. Já nos 12 meses encerrados em março, na série sem ajuste, a expansão foi de 1,05%. Em relação a março de 2017, o índice teve queda de 0,66% na série sem ajuste.
Usada para captar tendência, a média móvel trimestral sem ajuste subiu 1,43% em março, vinda de retração de 1,23% em fevereiro. Na série com ajuste, há queda de 0,50% em março, primeira variação negativa desde março de 2017.
Para Caio Napoleão, economista da MCM Consultores, os indicadores setoriais mensais do IBGE mostram um quadro menos negativo do que o indicador do BC e mais próximo da realidade. Mesmo assim, a consultoria está revisando a projeção de 3% de crescimento do PIB em 2018. Por enquanto, o Ministério da Fazenda também projeta expansão de 3%, mas já anunciou que revisará o número. O BC, por sua vez, tem estimativa de 2,6% desde o fim do ano passado.
Na comparação com março, dessazonalizada pelo MCM, os dados antecedentes de atividade de abril mostram um cenário misto. Há queda de 1,2% na expedição de papel ondulado, alta de 8,7% na produção de veículos e avanço de 1,3% no fluxo de veículos pesados nas estradas. No comércio, houve alta em emplacamentos de veículos (10,7%), mas queda no indicador da Serasa de atividade do comércio (-0,1%), na confiança do empresário (-0,1%) e do consumidor (-2,8%).
Já nos cálculos dessazonalizados pelo Bradesco, a expedição de papel ondulado caiu 1,3% em abril, resultado que somado a outros indicadores já divulgados corrobora a "expectativa de ligeiro recuo da produção industrial" no mês que inicia o segundo trimestre.
Para Alvaro Bandeira, economista-chefe da corretora Modalmais, os números recentes apontam que é possível que a atividade tenha também no segundo trimestre desempenho pior do que era esperado no começo do ano. "Esses dados deixam uma herança negativa, fica mais difícil mudar a tendência dessa curva", afirma.
Fonte: Valor - Macroeconomia, por Estevão Taiar e Eduardo Campos, 17/05/2018

