Os preços das commodities minerais e metálicas, que já vinham pressionando a inflação no atacado e no varejo, devem ter impacto ainda mais intenso com os contínuos recordes do minério de ferro, que ultrapassou a barreira de US$ 200 por tonelada pela primeira vez. Economistas esperam nova onda de alta nos índices do atacado - os Índices Gerais de Preços (IGPs) - em maio, que aos poucos chegará ao consumidor.

A mudança no patamar das commodities - incluindo as agrícolas, mas também a nova marca no minério - já contribuiu para a revisão da inflação para 2021 pela XP Investimentos, por exemplo. Nas últimas semanas, as projeções para os IGPs e para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vêm aumentando no Boletim Focus. O IGP-M para 2021, que estava em 12,66% há quatro semanas, passou ontem para 14,81%, a terceira semana seguida de alta. Já a estimativa para o IPCA avança há cinco semanas e está em 5,15%.

“Temos uma nova leva de alta. O preço do minério disparou, mas outras, como cobre e alumínio e as commodities agrícolas não param de subir. Houve uma pequena trégua em março e no começo de abril, mas já retomaram a subida, teremos uma nova onda de valorização”, afirma o coordenador do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getulio Vargas, André Braz.

No IGP-DI de abril, com alta de 2,22%, o preço do minério de ferro subiu 4,63%, ante 0,70% em março. O indicador - com período de coleta de preços entre 1º e 30 de abril - já apontou aceleração do preço do minério de ferro ante o IGP-M de abril, que teve deflação de 1,23% da commodity e coleta de preços de 21 de março a 20 de abril.

O impacto do minério de ferro no IGP se dá de forma mais direta e imediata, explica a economista da XP Investimentos, Tatiana Nogueira, enquanto no IPCA o repasse é mais indireto e diluído. “As commodities já vinham de altas significativas e agora vemos uma nova ‘pernada’. A gente revisou a projeção para a inflação em 2021 de 4,9% para 5,4% basicamente pelas commodities, tanto as agrícolas quanto as minerais metálicas”, diz.

A alta dos preços de bens industriais pelo IPCA - que sofrem essa pressão do minério de ferro nos custos - passou de 1,67% em 2019 para 3,16% em 2020 e estava em 5,51% no resultado acumulado em 12 meses até março. A XP projeta alta de 6,63% no resultado acumulado em 12 meses para esse grupo no IPCA de abril, que será divulgado hoje. Para 2021, a estimativa subiu de 4,60% para 5,10%. O grupo inclui itens como eletrodomésticos e automóveis, que levam aço em sua composição, produzido a partir do minério de ferro.

Professor da FGV EESP, Marcelo Kfoury Muinhos afirma que as revisões para os IGPs e o IPCA alcançam apenas o ano de 2021 e ainda não contaminam os números para 2022. O choque de preços de minério de ferro no atacado tende a levar até 90 dias para chegar ao consumidor, mas em menor dimensão.

Na sua avaliação, a nova onda de pressão nos IGPs em função da valorização das commodities deve ser em parte compensada pela valorização do real. “O dólar, que estava em R$ 5,60 há dois meses, já chegou aos R$ 5,40. Essa apreciação recente do câmbio deve compensar um pouco o impacto da alta das commodities”, diz o economista.

 

Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Lucianne Carneiro — Do Rio, 11/05/2021