Em abril, a inflação foi menor do que as estimativas do mercado, um movimento que se repetiu em oito dos últimos 12 meses. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do mês passado foi de 0,22%, conforme divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número ficou abaixo da estimativa média de 0,28% de consultorias e instituições financeiras pelo Valor Data, mas acima dos 0,09% de março. No acumulado de 12 meses, também houve aceleração em relação a março, de 2,68% para 2,76%. Mesmo assim, a conjuntura inflacionária segue favorável,
influenciada fortemente pela lenta recuperação econômica, ampla oferta de alimentos e expectativas ancoradas.

"Os números de abril confirmam duas coisas que já vínhamos destacando: a inflação continua surpreendendo para baixo e com uma qualidade boa", diz Paulo Val, economista-chefe da Brasil Plural Asset.

Nos quatro primeiros meses do ano, a inflação acumulada é de 0,92%, o menor índice para período desde a implementação do Plano Real, em 1994. Dessa forma, o índice completou dez meses abaixo do limite inferior (3%) da meta de inflação (4,5%).

A "qualidade boa" citada por Val vem, por exemplo, da média dos núcleos de inflação, que excluem itens com preços mais voláteis, e ficou em 0,18% em abril. No acumulado de 12 meses, foi de 3,03%. Nesse tipo de comparação, o dado vem caindo desde dezembro do ano passado, quando ficou em 3,59%.

Outra medida que sinaliza o aspecto "estrutural" desse quadro inflacionário favorável, segundo ele, é a inflação de serviços, mais suscetível à política monetária e à atividade econômica. No mês passado ficou em apenas 0,03%. No acumulado de 12 meses, foi de 3,46%.

Em relação a março, sete dos nove grupos que integram o IPCA tiveram variações mais altas de preços, com destaque para saúde (de 0,48% para 0,91%) e vestuário (0,33% para 0,62%). Os medicamentos, pertencentes ao primeiros grupo, têm tradicionalmente seus maiores reajustes em abril e subiram 1,52% no mês, contribuindo sozinhos com 0,05 ponto percentual da inflação mensal.

Os preços administrados como um todo subiram de 0,23% em março para 0,60% em abril. Pelo indicador acumulado de 12 meses, a aceleração foi de 7,05% para 8,34%. O grupo alimentação e bebidas, responsável por um quarto do orçamento das famílias, teve aceleração modesta, de 0,07% para 0,09%.

Para a Tendências Consultoria, as medidas do IPCA mais sensíveis à atividade econômica e à política monetária devem ter avanços lentos nos próximos meses, mas sem se aproximar da meta de 4,5%. No mês passado, a inflação de serviços excluindo passagens aéreas - uma dessas medidas-, ficou em 3,55% no acumulado de 12 meses, queda em relação aos 3,76% de março. Já os serviços subjacentes recuaram de 3,44% para 3,15% nesse mesmo tipo de comparação.

"Nesse contexto, o comportamento benigno do grupo [de serviços] continua refletindo, em grande parte, os efeitos maiores que o esperado do ajuste ocorrido no mercado de trabalho, que ainda deve gerar pressão desinflacionárias ao longo deste ano", diz o relatório.

Para a inflação de serviços como um todo, a projeção da consultoria é de 3,4% para este ano, "mas o ajuste mais intenso que o esperado nestes preços impõe viés de baixa para a projeção do grupo". Para os núcleos, a expectativa para os próximos meses "continua sendo de avanço, mas em ritmo lento".

Usando uma medida própria de núcleo da inflação, a Mogno Capital calcula que a média móvel dos últimos três meses em termos anualizados ficou em apenas 1,3% em abril. "É muito perto das mínimas dos últimos dez anos", reforçando a conjuntura inflacionária favorável, de acordo com Vagner Alves, economista da Mogno.

Entretanto, a surpresa para baixo do IPCA de abril não impediu algumas casas de revisar para cima as suas projeções para o índice de 2018, em função da desvalorização recente do câmbio. Mesmo assim, essas novas estimativas ainda estão distantes da meta de 4,5% estabelecida para este ano.

A Brasil Plural Asset, por exemplo, revisou para cima recentemente a sua projeção de 3,4% para 3,6%. Já a estimativa do UBS subiu de 3,6% para 3,8%. Nos cálculos da Mogno Capital, a desvalorização foi responsável por 0,2 ponto percentual da revisão de 3,5% para 3,8%. O outro ponto percentual veio do aumento do preço do gasolina.

Já o IBGE, pelo menos por enquanto, não detectou impactos do real mais desvalorizado sobre a inflação. "Não estamos vendo efeitos do câmbio sobre os preços. Quando aparecerem, devem estar refletidos nos combustíveis, por causa da política de repasses de preços, e também em alguns itens eletrônicos que têm componentes importados. Em abril, porém, não vimos essa influência", disse o gerente de Índices de Preços do IBGE, Fernando Gonçalves.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Estevão Taiar e Bruno Villas Bôas, 11/05/2018