A combinação de exterior positivo, falta de notícias explosivas da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia e certa expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) pudesse adotar um tom mais inclinado à retirada dos estímulos em seu comunicado fez o dólar cair abaixo de R$ 5,40 no pregão de ontem, ao passo que as taxas de juros futuras mostraram leve redução.
A moeda americana encerrou em baixa de 1,20%, a R$ 5,3647. Com isso, o real teve, com alguma folga, o melhor desempenho do dia entre as moedas mais negociadas do mundo. Já a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 passou de 4,79% para 4,785%, enquanto a do DI para janeiro de 2027 cedeu de 8,66% para 8,57%.
“O mercado vem se preparando nos últimos dias em questão de preços e posicionamento para uma posição mais dura do Copom”, disse Cláudio Pires, diretor da MAG Investimentos, antes do resultado da reunião de política monetária. De acordo com ele, os taxas dos contratos de prazos mais curtos ficaram estáveis, enquanto as mais longas “tiveram um alívio, por essa esperança do mercado de que o BC vai subir o tom e trazer as expectativas de inflação mais para perto da meta.”
O movimento da curva de juros ajudou o câmbio, bem como certa percepção de que a CPI está gerando menos ruído do que se temia. Para integrantes de uma gestora local, o depoimento do e-ministro da Saúde Nelson Teich foi “protocolar” e não acrescentou muito ao de seu antecessor, Henrique Mandetta (DEM-MS), na segunda-feira.
“Achei que Mandetta pudesse sair como Sergio Moro [ex-ministro da Justiça e Segurança Pública], deixando o rastro de alguma investigação. Mas não trouxe nada de relevante além do que já se sabia: que o presidente defendia a cloroquina e é negacionista”, disse um profissional, que preferiu não ser identificado. “Não me pareceu nada demais nem Bolsonaro pode ser indiciado, no direito administrativo, apenas por defender algo.”
Em solenidade ontem, o presidente Jair Bolsonaro voltou a defender a cloroquina e o tratamento precoce. Ele também ameaçou assinar um decreto pondo fim às medidas de restrição e, em um recado ao Supremo Tribunal Federal, declarou: “Se eu baixar um decreto, vai ser cumprido. Não será contestado por nenhum tribunal, porque ele será cumprido”.
A decisão do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), de dissolver a comissão da reforma tributária foi minimizada no mercado. “Não acho que essa extinção da comissão crie mais incertezas do que já existem acerca da reforma tributária. Trata-se de uma reforma que mexe com muitos interesses e, em um Congresso fragmentado e com partidos sem clareza ideológica, como o nosso, é muito difícil passar uma proposta desse tipo em condições normais”, afirmou João Peixoto Neto, sócio-diretor da Ouro Preto Investimentos.
Na bolsa, o tom geral mais otimista do investidor local e a nova rodada de resultados trimestrais positivos impulsionaram o Ibovespa, que encerrou com ganho de 1,57%, aos 119.564 pontos.
Quase padrão dos últimos meses, o que sustentou o Ibovespa foi o avanço de empresas ligadas a commodities, com destaque para as siderúrgicas, que têm mostrado balanços sólidos nesta safra de resultados. A Gerdau teve lucro líquido ajustado recorde no primeiro trimestre, em meio à alta nos preços combinada com a forte demanda por produtos. Não à toa, as ações preferenciais da Gerdau tiveram a maior alta do Ibovespa, com ganho de 5,51%, seguidas por Gerdau Metalúrgica PN (5,46%). Ainda no setor, Usiminas PNA subiu 4,47% e CSN ON teve alta de 3,22%.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Marcelo Osakabe, Felipe Saturnino, Lucas Hirata e Olívia Bulla — De São Paulo, 06/05/2021

