A indústria seguiu em trajetória de alta modesta no fim do primeiro trimestre, avaliam economistas, corroborando a expectativa de um resultado mais fraco do Produto Interno Bruto (PIB) no período. Segundo a estimativa média de 20 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data, a produção industrial subiu 0,5% entre fevereiro e março, feitos os ajustes sazonais, depois de aumento de 0,2% na medição anterior.

Na passagem do último trimestre de 2017 para o primeiro de 2018, 16 analistas projetam, em média, que a produção avançou 0,3%, bem abaixo da expansão de 1,6% verificada nos últimos três meses do ano passado. As projeções para o desempenho mensal da Pesquisa Industrial Mensal - Produção Física (PIM-PF), a ser divulgada amanhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vão de queda de 0,4% até alta de 1% em março.

O comportamento dos indicadores que antecedem a produção foi coerente com alguma recuperação no terceiro mês do ano, mas não muito animadora, comenta Helcio Takeda, economista da Pezco. Nos cálculos da consultoria, a atividade industrial subiu 0,4% sobre fevereiro.

Com a dessazonalização feita pela Pezco, a produção de veículos e máquinas agrícolas, medida pela Anfavea (entidade que reúne as montadoras), aumentou 6% de fevereiro para março. Em igual comparação, e também com o ajuste da consultoria, a expedição de papelão ondulado - que antecede a emissão de embalagens e é medida pela associação de empresas do setor - ficou 1,7% maior. Calculado pela Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), o fluxo pedagiado de veículos pesados avançou 1,2%.

Outros dados acompanhados pela consultoria para estimar a variação da produção são o Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria de transformação paulista, calculado pela Fiesp, que aumentou 0,6% na passagem mensal, assim como o Índice de Confiança da Indústria (ICI), que, de acordo com a Fundação Getulio Vargas (FGV), subiu 1,3%.

Depois de um período de reação mais forte, a indústria tende a continuar andando de lado, afirma Takeda, devido à ausência de dados mais consistentes vindos da demanda doméstica. "Não há nenhum outro vetor para dar impulso importante à produção", diz o economista, para quem a desaceleração da retomada do mercado de trabalho e a maior incerteza no ambiente político estão impondo um ritmo mais lento ao consumo.

"Apesar da volatilidade, os números continuam a mostrar uma recuperação econômica gradual, sugerindo alta de 0,5% do PIB no primeiro trimestre", prevê o departamento econômico do UBS. Para o banco suíço, a produção industrial aumentou 0,5% ante o mês imediatamente anterior, e 2,8% ante março de 2017. "Nosso indicador de condições financeiras continua apontando aceleração adicional nos próximos dois trimestres", comentam os economistas do UBS.


Segundo o Bradesco, a alta de 0,6% prevista para a produção em março é compatível com a expectativa de retomada gradual da economia brasileira nos primeiros três meses do ano. De janeiro a março, o PIB aumentou 0,3% em relação aos três meses anteriores, pelas estimativas da equipe econômica do banco.

Takeda, da Pezco, também prevê que o PIB cresceu 0,3% no primeiro trimestre, em linha com o desempenho esperado para a produção industrial, que, em seus cálculos, aumentou 0,2% sobre os últimos três meses de 2017. "O desempenho da economia no primeiro trimestre ficou aquém do previsto anteriormente, mas isso não compromete a reação esperada ao longo do ano", disse. "As condições para a continuidade do crescimento estão dadas."

De acordo com os economistas do UBS, o setor de bens comercializáveis (que podem ser transacionados com o exterior), como bens de consumo duráveis e máquinas e equipamentos, segue liderando a retomada modesta da atividade nas fábricas. No entanto, a distância entre o PIB potencial e o efetivo, o chamado "hiato do produto", continua elevado - o PIB, pelos cálculos do banco, está cerca de 5,5% abaixo do nível de 2013.

No cenário do UBS, o efeito defasado das taxas de juros mais baixas sobre a atividade e a confiança dos empresários em nível já normalizado tendem a manter o ambiente favorável ao crescimento, apesar da maior volatilidade externa e, também, da incerteza doméstica a respeito da eleição presidencial.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Arícia Martins , 02/05/2018