As surpresas negativas com os dados de atividade econômica no início de 2018 fizeram o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) reduzir as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre e do ano. E com as incertezas sobre a eleição presidencial
e o cenário externo conturbado, o balanço de riscos aponta para baixo, afirma Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, do Ibre-FGV.

A edição de março do boletim indica crescimento de 0,5% no primeiro trimestre, ante o quarto trimestre do ano passado. A projeção anterior era de 0,7%. A estimativa para o ano caiu de 2,8% para 2,6%.

"Há riscos negativos. O cenário externo preocupa cada vez mais, e as famílias têm dificuldade de tomar decisões de consumo em um contexto adverso", afirma Silvia. Ela pondera que grandes revisões do PIB, para abaixo de 2%, estão fora do radar do Ibre. "A inflação está muito baixa, o que permite manutenção da renda".

Entre as principais revisões para o PIB está o consumo das famílias, que saiu de expansão de 0,6% para 0,2% no primeiro trimestre, ante o quarto do ano passado. E caiu de 3% para 2,7% no ano. Mas o carregamento estatístico deixado por 2017 foi de 1%. Assim, se essa linha do PIB ficar zerada em 2018, ainda assim haveria um crescimento de 1%.

Os dados apontam que o ânimo do consumidor vem sendo afetado pela percepção de que a situação financeira continua difícil, a despeito da melhora do poder de compra. "Há certa frustração das famílias com o ambiente econômico e político. Isso ajuda a limitar a demanda", afirma a coordenadora do boletim.

Silvia destaca que também houve redução na estimativa dos investimentos (5,4% para 5,1%), principalmente por causa da fraca reação da construção civil, cujo crescimento foi revisto de 1,1% para 0,8% em 2018. Outra revisão para baixo foi na indústria extrativa (3,8% para 2,6%).

Silvia observa que há uma desaceleração nos serviços prestados às famílias, o que é evidenciado pela baixa inflação desse segmento. "O que tem frustrado mais é a categoria outros serviços, que abrange escolas, cabeleireiro, recreação. O consumo das famílias continua fraco nesse segmento", diz. Essa é uma situação que se retroalimenta, observa a economista do Ibre. O setor é o que mais emprega, mas tem sido o mais atrasado na recuperação.

Com relação ao mercado de trabalho, enquanto os números do Caged ficaram aquém do esperado no primeiro trimestre (195 mil, dessazonalizados, ante expectativa de 250 mil), mas a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua - que também abrange o mercado informal -mostrou uma população ocupada acima do esperado no trimestre encerrado em fevereiro, último dado disponível. A taxa der desemprego da Pnad alcançou 12,6% em fevereiro, ante 12,2% em janeiro, mas em teremos dessazonalizados caiu de 12,4% para 12,3%.

O fato de a criação de emprego formal estar mais fraca que a esperada gera mais incerteza sobre a renda e a capacidade de tomada de crédito das famílias. "Isso ajuda a reduzir impacto de queda de juros sobre a demanda", afirma Silva. E apesar da queda, a taxa de desemprego ainda é alta, e há muita informalidade. O Ibre reduziu a estimativa para o Caged de 800 mil para 750 mil vagas criadas, mas manteve a expectativa para a taxa de desemprego média do ano em 12,1%.

Para a instituição, dificilmente o país terá uma taxa de desemprego inferior a dois dígitos ao longo de 2018 e 2019, em termos dessazonalizados, sinal de que a recuperação do mercado de trabalho deve ser lenta.

Quanto à política monetária, o boletim destaca que os riscos estão no cenário externo e nas eleições. Embora o discurso recente de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) tenha afastado a possibilidade de uma subida mais rápida dos juros, a política comercial de Donald Trump tem levado volatilidade nos ativos dos países emergentes. "Mas a principal razão para uma interrupção no afrouxamento da política monetária no segundo semestre é a eleição de outubro, que representa um risco em si mesma, dada a grande imprevisibilidade do resultado", escreve Marcelo Kfoury Muinhos, professor da EESP/FGV.

Ainda no boletim, o economista José Júlio Senna afirma que "o quadro lá fora já não inspira a mesma confiança de antes. Isso por si só já é ruim". Uma deterioração das condições financeiras aumentaria a chance de o mercado financeiro doméstico começar a retratar preocupações com a política econômica do próximo governo, antes mesmo do início da campanha eleitoral, afirma.

Fonte: Valor - Macroeconomia, por Ana Conceição , 23/04/2018