O consumo nacional de energia elétrica resistiu à piora da pandemia entre janeiro e março, ajudado pelas elevadas temperaturas no país, mas começou a desacelerar nos primeiros dias de abril, segundo dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) obtidos pelo Valor.

Levantamento prévio da instituição mostra que, de 1º a 9 de abril, o consumo no Sistema Interligado Nacional (SIN) atingiu pouco mais de 62 mil megawatts médios (MWm). O volume ainda mostrou alta, de 6,8%, em relação a igual período do ano passado - abril foi um dos piores meses da pandemia para o setor elétrico -, mas ficou 4,4% inferior ao montante registrado em 2019.

De acordo com Rui Altieri, presidente do conselho de administração da CCEE, o desempenho mais recente reflete uma conjunção de fatores. Além das restrições contra a covid-19, as temperaturas, que ajudaram a sustentar o consumo de energia nos primeiros meses do ano, se reduziram. Somou-se ainda o efeito dos feriados antecipados em algumas cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro.

Nesse contexto, o consumo no mercado regulado de energia (ACR), que já vinha com dificuldades para reagir, voltou a ter queda. Nos primeiros dias de abril, os volumes nesse ambiente caíram 0,6% na comparação com 2020 e 10% em relação a 2019.

O principal obstáculo para a retomada do consumo no ACR é o impacto persistente da pandemia sobre pequenos comércios, que representam boa parte desse mercado. Enquanto vários ramos produtivos que compram energia no mercado livre (ACL) adaptaram suas atividades e conseguiram reverter o choque sofrido no ano passado, estabelecimentos menores ligados ao ACR permanecem fechados ou operando em horários reduzidos.

Altieri ressalta, porém, que o mercado livre de energia tem mostrado retomada consistente. Na prévia de abril, o consumo no ACL registrou alta de 25,2% em relação ao ano passado, e de 9,1% ante 2019, com crescimento em todos os segmentos, à exceção do setor alimentício.

“A tendência continua positiva e nós acreditamos em uma manutenção do ritmo de crescimento do ACL nos próximos meses, se observarmos recuperação da economia e retorno gradual dos mercados à normalidade ao longo do ano”, diz o executivo.

Apesar da desaceleração recente, os dados estão longe de mostrar um quadro preocupante como o visto no ano passado, quando o consumo nacional chegou a despencar mais de 10%. A tendência de alta aparece também nas prévias divulgadas por companhias elétricas para o primeiro trimestre, sinalizando números mais positivos na distribuição, pelo menos sob a ótica do volume de energia vendida.

Na EDP Brasil, que detém concessionárias em São Paulo e no Espírito Santo, o volume de energia distribuída cresceu 4,4% de janeiro a março, na comparação anual. Já na Neoenergia, a energia injetada aumentou 2,7% no período, levando em conta os números de quatro empresas: Coelba (BA), Cosern (RN), Celpe (PE) e Elektro (SP). Se considerada a CEB, distribuidora do Distrito Federal adquirida no fim do ano passado e incorporada à companhia em março, a alta foi de 6,2%.

Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos, destaca a boa evolução no Nordeste. “Companhias como a Equatorial e a Neoenergia [que atuam nessa região] capturam essa melhora e podem, sim, mostrar bons números”. Outro destaque positivo, em sua análise, pode vir da Energisa, com demanda puxada pelo Centro-Oeste.

A boa notícia para o setor elétrico, porém, não deve se refletir na atividade econômica. Para captar os movimentos de atividade, são excluídos fatores como as temperaturas e a própria sazonalidade de alguns setores. “Fazendo esse tipo de tratamento da base da CCEE, a carga já indica uma reversão da recuperação da atividade econômica vista no segundo semestre do ano passado”, afirma Saulo Abouchedid, coordenador do Núcleo de Estudos de Conjuntura (NEC) da Facamp.

A Facamp elabora o ITE, índice calculado a partir do consumo de energia divulgado pela CCEE. O ITE-Facamp registrou quedas de 1,3% em janeiro e de 0,50% em fevereiro, ambos nas comparações mensais dessazonalizadas. O índice tem um coeficiente de correlação (r) próximo de 0,8 com o IBC-Br, do Banco Central.

“Provavelmente devemos ver uma queda ainda mais pronunciada em março. Certamente o primeiro trimestre vai apontar uma queda na atividade, até pelo recrudescimento da pandemia e da quarentena em vários Estados”, avalia Abouchedid.


Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Letícia Fucuchima — De São Paulo, 22/04/2021