Afetado pelo cenário de ganhos salariais menores e confiança em baixa do consumidor, o comércio voltou a perder fôlego em fevereiro, segundo economistas. A projeção média de dez instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor Data indica que o volume de vendas no varejo restrito (que não inclui automóveis e material de construção) subiu 0,1% no segundo mês do ano, depois de ter avançado 0,8% em janeiro, sempre na comparação com o mês anterior e após os ajustes sazonais.

As estimativas para a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), a ser divulgada amanhã pelo IBGE, vão de queda de 0,5% até alta de 1%. Já o varejo ampliado - que engloba, além dos oito segmentos analisados no restrito, os de veículos e materiais de construção - deve ter recuado 1% em fevereiro, segundo a previsão média de nove analistas.

Flávio Serrano, economista-sênior do banco Besi Brasil, estima que as vendas no conceito restrito cresceram 0,4% entre janeiro e o mês seguinte, desempenho não tão fraco levando em conta a base de comparação positiva. Mesmo com as duas altas seguidas, no entanto, o setor não vai conseguir recuperar o tombo de 2,6% observado em dezembro, pondera Serrano, para quem as taxas mais modestas de expansão do comércio estão relacionadas à perda de fôlego da renda.

"O comércio restrito vinha com condições um pouco melhores do que o restante da economia porque o mercado de trabalho ainda dava suporte ao setor, principalmente aos segmentos mais voltados à renda. Mais recentemente, no entanto, vimos uma grande desaceleração da massa salarial", disse Serrano. "Estamos em um processo de ajuste do consumo."

Essa nova realidade já tem ficado mais clara nos bens duráveis, produtos de maior valor agregado cuja compra depende de expectativas. Como exemplo, Serrano menciona que, em fevereiro, as vendas de veículos encolheram 28,3% sobre igual mês do ano anterior, segundo números da Fenabrave, entidade que reúne as concessionárias. Este dado, em sua avaliação, está em linha com a retração de 1,2% prevista para as vendas no comércio ampliado frente a janeiro.

Os indicadores que funcionam como um termômetro do varejo tiveram comportamento fraco em fevereiro, comenta Paulo Neves, da LCA Consultores, principalmente as vendas de supermercados, que têm peso relevante na PMC. De acordo com dados da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) dessazonalizados pela consultoria, as vendas reais do setor caíram 1,7% na passagem mensal, enquanto a expedição de papelão ondulado recuou 1,9% e o movimento dos consumidores nas lojas medido pela Serasa Experian cedeu 1%.

Para Neves, os números indicam leve alta das vendas restritas no segundo mês do ano, de 0,3%, dado condizente com o desaquecimento do mercado de trabalho e com a piora das condições de crédito. Além disso, ele observa que a breve recuperação do varejo de setembro a novembro de 2014 foi sustentada pelos bens duráveis, produtos com baixa taxa de reposição. "O comércio caminhando em terreno positivo puxado por esse tipo de produto rouba crescimento do varejo à frente."

Mesmo com a expectativa de que o comércio tenha crescido no primeiro bimestre, o economista da LCA avalia que o setor não deve ajudar o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) de janeiro a março. "A perspectiva para o comércio é de desaceleração. Mesmo que o setor continue em terreno positivo, terá neste ano a sua menor alta desde 2003", diz Neves, que trabalha com aumento de cerca de 1% para o volume de vendas no varejo restrito em 2015. Em 2014, esse indicador avançou 2,2%.

Serrano também afirma que a inflação mais elevada e o menor poder de barganha dos trabalhadores vão se refletir nos dissídios e, consequentemente, sobre a atividade do comércio.
    


Fonte: Valor Econômico, por Arícia Martins, 13/04/2015