A nova surpresa com a inflação não foi suficiente para animar as apostas na queda da Selic. Na avaliação de profissionais de mercado, está cada vez mais claro que o ciclo de flexibilização monetária deve ser encerrado com um corte final da taxa básica na próxima decisão do Copom (Comitê de Política Monetária), em maio.

A ansiedade com a disputa eleitoral e a piora do quadro externo reforçam o sentimento de cautela, limitando o impacto dos números de inflação. Conforme divulgado ontem, o IPCA teve alta de apenas 0,09% em março, o resultado mais baixo para o mês desde o início do Plano Real em 1994. Ainda assim, a probabilidade de o Copom atuar em junho vai se tornando cada vez mais remota, na avaliação dos agentes de mercado. E vale dizer que, mesmo com expectativa majoritária no mercado, as chances de corte da taxa, de 6,50% para 6,25%, no mês que vem estacionaram em 65% nos últimos dias.

"O balanço de riscos, com ruído político, piora do cenário internacional e desvalorização da moeda, indica que não devemos ter corte em junho", afirma o economista sênior do banco Haitong, Flavio Serrano. Seria necessária uma clara mudança da conjuntura econômica para a continuidade dos cortes da taxa básica, o que não parece provável neste momento, avalia. 

Os próximos passos para a Selic foram reiterados ontem pelo presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn. Em sessão da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Ilan afirmou que vê como apropriada uma flexibilização monetária em maio e a interrupção do ciclo de cortes nas suas reuniões posteriores do Copom.

A disparada recente do dólar tem papel crucial para as apostas no mercado. Isso porque a trajetória do câmbio influencia a expectativa de inflação para 2019, que se torna aos poucos o principal balizador da política monetária. De acordo com o Boletim Focus, o IPCA projetado está em 4,09%, mas a inflação esperada tende a subir no caso de uma alta mais intensa da moeda americana.

Para o economista-chefe do Rabobank Brasil, Mauricio Oreng, o cenário de inflação permanece favorável o suficiente para o Banco Central manter seu plano de cortar a taxa Selic em maio. "No máximo, [a instabilidade no câmbio] reforça a expectativa de pausa em junho, como já indicado na comunicação do BC", afirma o economista.

Por outro lado, não se descarta o risco de piora da cena local mesmo que esse não seja o cenário base. A economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour, afirma que uma desvalorização mais expressiva do câmbio poderia evitar o corte em maio. Mas, para isso, o movimento teria de ser intenso e específico do Brasil, indo para R$ 3,60 em pouco tempo.

A fragmentação das candidaturas de centro-direita, sem um nome que desponte ainda nas pesquisas, eleva a preocupação com a continuidade da agenda de reformas num próximo governo. "Nossa sensação é que os formuladores de políticas começarão a se concentrar menos nos dados de inflação e mais sobre os riscos políticos crescentes e a consequente queda no real", afirma o economista para América Latina da Capital Economics, Edward Glossop.

O mercado financeiro, que parecia estar complacente com o risco político nos últimos meses, agora aguarda uma movimentação mais intensa de candidatos reformistas, afirma o trader Matheus Gallina, da Quantitas. Num sinal dessa cautela, o contrato DI janeiro de 2023 teve alta de 2 pontos-base, para 9,210%, na B3. Fica a impressão de que a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ter sido o último evento mais positivo para os mercados nos próximos meses, afirma o especialista.

Fonte: Valor - Finanças, por Lucas Hirata, 11/04/2018