As taxas de juros cobradas pelos bancos e, por consequência, os spreads (diferença entre a taxa de captação e os juros dos empréstimos) vão cair, mas a velocidade dessa redução não é a mesma da taxa básica de juros (Selic). A afirmação é do presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior. "Temos a convicção de que as taxas vão cair, mas não se reduz o juro ou o spread com canetada", disse ontem a jornalistas.

A redução dos spreads bancários não vem acompanhando a Selic, que atingiu as mínimas históricas, nem a queda da inadimplência. Em fevereiro, a taxa chegou a subir em relação ao mês anterior, de 32,9 para 34,1 pontos nas linhas de crédito a pessoas físicas com recursos livres.

Lazari afirmou que todos os custos dos bancos estão embutidos nessa taxa, e não apenas a Selic e a inadimplência. Ele deu como exemplo as despesas com a rede de agências, incluindo a presença de vigilantes armados.

O presidente do Bradesco disse que os bancos estão adotando medidas de conscientização do uso do crédito. Entre elas está o anúncio das novas regras para o cheque especial, que deve ocorrer neste mês. Ele afirmou, porém, que é preciso evitar a "satanização" da linha. "Muitos clientes sabem usar o cheque especial com sabedoria", afirmou.

Lazari afirmou que a medida do Banco Central de limitar as taxas cobradas nas transações com cartão de débito é correta e deve beneficiar  principalmente os pequenos comerciantes. Ele disse que o impacto para o Bradesco deve ser pequeno, porque as taxas do banco já são próximas do teto
estabelecido pelo BC.

O Bradesco tem como objetivo registrar uma expansão no crédito perto do teto da projeção (guidance) dada pelo banco para este ano, que varia de 3% a 7%, segundo Lazari. Nas linhas para pessoas físicas, o banco pretende crescer em produtos como o crédito imobiliário, que trazem uma maior fidelização do cliente. Em março, o Bradesco bateu um novo recorde nos empréstimos para a compra da casa própria, com o desembolso de R$ 1,1 bilhão, segundo Lazari.

O presidente do Bradesco vê uma recuperação mais lenta nas linhas para pessoas jurídicas, cuja demanda ainda se concentra no crédito de curto prazo. Mas ele se mostrou otimista para o desempenho dos empréstimos a empresas, entre outros fatores, pela redução da participação do BNDES. "Há quase R$ 200 bilhões que eram atendidos pelo BNDES que devem ser supridos por bancos privados."

Os juros têm condições de se manter baixos por um longo período se as reformas avançarem, em particular a da Previdência, segundo Lazari. "Há uma clara indefinição em relação às eleições, mas estamos otimistas", disse. Par ele, a agenda para o país de continuar o caminho atual é mais simples do que tentar mudar tudo. 

Em sua primeira apresentação em um evento do banco na condição de presidente, Lazari enfatizou o que deve ser um mantra de sua gestão: ganhos de escala. "Estamos focados em voltar a crescer, vender produtos e atrair clientes." Esse avanço deve acontecer tanto do processo de bancarização da população quanto do ganho de participação (market share). Mesmo em um cenário de juros baixos, o Bradesco tem condições de apresentar um retorno maior, segundo o executivo. "Vamos disputar cliente a cliente", disse.

Com a escolha do comando da seguradora e da área de gestão de recursos, as mudanças no primeiro escalão do banco estão completas, segundo Lazari. Ele disse que não há previsão de indicação de um substituto para a vaga de Domingos Abreu no conselho de administração do banco. Réu na Operação Zelotes, que investiga a suspeita de compra de sentenças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), ele renunciou ao cargo na semana passada, antes de assumir a posição.

Fonte: Valor - Finanças, por Vinícius Pinheiro , 05/04/2018