A retomada da economia brasileira e a consequente queda na inadimplência nos negócios entre companhias ajudaram o mercado de seguro de crédito a voltar ao azul no ano passado, depois de dois anos muito negativos. Levantamento da seguradora Coface com base em dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostra que os sinistros recuaram 85,4% de 2016 para 2017, passando de R$ 385,8 milhões para R$ 56,5 milhões.
Com a queda, as seguradoras voltaram a operar sem prejuízo, com um total de R$ 298,1 milhões de prêmios emitidos nos 12 meses até dezembro. Nos dois anos imediatamente anteriores, as despesas com sinistros superaram o volume das receitas - em 2016, por exemplo, foram R$ 290 milhões em prêmios contra R$ 385,8 milhões em sinistros. Nesse contexto, o índice de sinistralidade saiu de 132,9% para 18,9% no ano passado.
O levantamento considera os números das seguradoras que atuam apenas com o seguro para empresas, como AIG, Cesce, Chubb, Coface, Credito Y Caución, Euler Hermes, QBE, Swiss e Zurich, excluindo, por exemplo, quem atua com outros tipos de seguro vinculado a crédito, como o garantia
estendida, de empresas ligadas aos bancos.
O seguro de crédito para empresas funciona como uma proteção do "contas a receber", uma espécie de blindagem para as empresas contra a inadimplência em vendas a prazo para outras companhias. A contratação pode ser feita tanto para negociações locais quanto para a exportação. O volume dos prêmios emitidos mostra como ainda é pequeno esse segmento, porém o volume dos recebíveis protegidos é muito maior.
Marcelo Oliveira, diretor de risco da Euler Hermes, conta que no mundo a seguradora teve faturamento de ? 2,6 bilhões em 2017, para cobertura total de ? 894 bilhões.
"Os dois anos de crise deixaram a economia muito debilitada, o que afetou as companhias. Muitas empresas ficaram alavancadas, o crédito secou com os bancos fechando as portas, e foi difícil para elas arcarem com a despesa financeira. Isso levou a uma inadimplência enorme, que já começa a melhorar com a retomada da atividade", explica Marcele Lemos, presidente da seguradora Coface no Brasil.
Segundo dados da Boa Vista SCPC, os pedidos de falência caíram 18% em 2017 e os pedidos de recuperação judicial, 23,7%. "Passado o período de intensa retração da atividade econômica, redução do consumo, restrição e encarecimento do crédito, entre outros fatores, as empresas voltam agora a esboçar sinais mais sólidos dos indicadores de solvência", afirmou o birô de crédito, em nota, no início do ano.
Para Cristina Salazar, presidente da Cesce Brasil, a reação é clara. "As companhias adaptaram-se: já fizeram as demissões, não estão mais com estoques elevados e ajustaram o novo patamar de vendas. Com isso, a inadimplência ficou menor."
A queda da inadimplência das vendas a prazo é o primeiro efeito positivo para as seguradoras, segundo Cristina, da Cesce. Outro reflexo importante nessa linha de despesa é a reversão de sinistros - quando uma apólice é acionada e a seguradora precisa fazer o desembolso, ela tenta recuperar posteriormente os recursos com os devedores.
As vendas desse produto tiveram pouco avanço nos últimos dois anos com a desaceleração da economia e consequente queda na venda entre empresas, explica Eduardo Cruci, gerente de linhas de crédito da AIG Brasil. O executivo lembra ainda que durante a crise, sobrou pouco orçamento para as empresas que não tinham seguro de crédito contratarem o produto. Os prêmios emitidos, nesse contexto, subiram 2,7% de 2016 para 2017, passando de R$ 290,3 milhões para R$ 298,1 milhões, segundo dados da Susep.
Durante o período de crise, as seguradoras buscaram se ajustar e reduzir a exposição aos riscos com a diminuição dos limites de cobertura. "Todas as operadoras reduziram exposição por conta da piora generalizada das empresas, mas já voltaram a abrir a torneira do crédito no ano passado. A cobertura está voltando, aos poucos, para os patamares pré-crise", diz Oliveira, da Euler Hermes.
O produto deixou de ser apenas cobertura de inadimplência e passou a ser também usado também em operações estruturadas, uma das apostas da AIG. Cruci destaca o uso dessa na securitização de recebíveis como maneira de reduzir o risco da operação e, por consequência, deixar a taxa de remuneração dos títulos mais baixa. "Ele passou a ser usado sobretudo na estruturação de fundos de Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC) e de Certificados de Recebíveis do Agronegócio", diz.
De olho no futuro, a expectativa é que 2018 seja ainda melhor do que foi o ano passado em termos de crescimento e melhora na sinistralidade, avalia Marcele, da Coface. Ela afirma que existe incerteza grande em relação às eleições do segundo semestre, mas que vê descolamento entre política e economia. "Os nossos clientes estão muito otimistas com o ano de 2018, com números melhores puxados pela retomada do consumo."
Fonte: Valor - Finanças, por Daniela Meibak, 05/04/2018

